Semana passada assisti ao filme "Vitória" e, ainda que, com alguns dias de intervalo, não consigo deixar de falar do que vi. O filme é da Fernanda Montenegro, aliás, o filme é a Fernanda Montenegro, porque sua figura é onipresente. E brilha, brilha o tempo inteiro. Nenhum gesto seu é em vão e nada sobra, nada falta. Fernanda é perfeita (a gente bem sabe). O filme é construído com cuidado, em um tempo lento e meticuloso que quase não se vê mais no cinema. Confesso que em determinado momento pensei que se poderia cortar aqui ou ali, mas não, aquele passo mais lento, condizente com o ritmo de quem viveu tanto que se pergunta se já não viveu demais, resultou no tempo necessário para mostrar a rotina da personagem Nina. Sua solidão, sua invisibilidade. Porque é mesmo impressionante como as pessoas deixam de enxergar os idosos. Relevam suas palavras, suas vontades, suas necessidades, sua existência. É quase como se decretassem "Fica no seu canto, esperando a morte, e não enche o saco". Uma vez minha avó desabafou e disse que "velho também é gente". Nunca esqueci.
O nome do filme é Vitória, mas a personagem se chama Nina, e sua vida parece uma sucessão de derrotas. Nasceu pobre, não teve oportunidades, foi abusada, sofreu perdas sucessivas, até que ficou sozinha, morando num pequeno quarto e sala em Copacabana, virado para uma boca de fumo. Em um momento do filme ela diz que, quando foi morar ali, era uma mata, era lindo. Mas, como todo mundo sabe, pobre não tem direito à beleza e ao sossego. O seu entorno pode virar Cracolândia, boca de fumo, o que for. E bala perdida pode achar o pobre à vontade, que está tudo bem. Na verdade, a nossa elite gosta de um pobre a menos e até vibra quando é chacina, porque lá se vão vários pobres de uma vez. Escândalo é se a bala perdida achar alguém de classe média, e pasmem, um branco. A gente sabe disso tudo, mas o filme se permite falar de todas as nossas diferenças e aberrantes contrastes com um toque de poesia... em meio a um tiroteio, a xícara de porcelana de Nina é quebrada. Dias depois, ela consegue juntar todos os pedaços e colar a relíquia, mas quando vai beber café, o líquido escorre por todos os lados. Ali fica evidente que sua vida nunca mais será a mesma depois daquela bala cravada em sua parede. Ela grita com o fôlego que lhe resta, em uma reunião de condomínio, que o perigo vem de fora, da janela, e não do menino da comunidade com quem desenvolveu uma amizade - Marcinho, um menino bom que parece fadado a se tornar o que lhe resta para ser: soldado do tráfico. Ora, se a relação de Nina com Marcinho nos faz dividir com a velha senhora a sensação de impotência, sua relação com Bibiana, personagem de Linn da Quebrada, faz nosso coração transbordar de ternura. A cena das duas em uma matinê dançante é capaz de comover o coração mais empedernido. Diga-se de passagem, Linn é uma grande atriz, e o entrosamento das duas é lindo de se ver. Linn sempre embevecida, Fernanda sempre ensinando, e seguem as duas na tela, trocando intensamente uma com a outra.
Voltando à personagem: Nina é sozinha, não tem ninguém, mas seu coração é tão generoso que ela vai atraindo um aqui, outro ali. Ela atrai Marcinho, Bibiana, o jornalista Flávio, que ao resolver publicar sua denúncia, compra de fato sua história, e se torna seu fiel escudeiro. A força de Nina é contagiante, mas nem sempre é capaz de salvar seus amigos. A história, baseada em fatos reais, é incrível, e precisa ser vista. Mostra com crueza nossa realidade, e também dá a dica de como resistir: com generosidade, resiliência e fé em um mundo melhor. Às vezes o impulso de ir em frente pode ser motivado apenas pelo sentimento de que "pior do que está não pode ficar". Que assim seja. O filme mostra que quem não tem nada a perder pode, ao menos, conquistar a paz de espírito. Nesse nosso mundo conturbado, já é muita coisa.
A força de Fernanda Montenegro encanta. Nunca vi uma atriz em idade tão avançada em um desempenho assim. É estranho até para os olhos. São rugas reais em um cenário extremamente realista, muitas externas, uma imersão fantástica naquele mundo. Fernanda Montenegro deixa de ser a dona Fernanda, a nossa grande dama, a Fernandona, e vira a quase invisível Nina, uma velha pobre como tantas no Brasil, que só se torna alguém quando diz "Basta!".
“Vitória” faz a gente pensar na própria vida, no Brasil que a gente quer. Que seja um lugar onde as Ninas possam viver em paz. Afinal, se a gente não morrer cedo, a gente vai envelhecer, e vai ter que se esforçar para ser ouvido e para gerir a própria vida, em uma sociedade em que parece ser proibido envelhecer.
Quem despreza os mais velhos tem medo da morte e, quem tem medo da morte, como bem provou Joana da Paz (a Nina da vida real), vive pela metade. Isso torna ainda mais sublime a atuação de Fernanda. É maravilhoso ver alguém chegar aos 95 anos vivendo a vida plenamente. Por isso, antes de mais nada, vamos prestigiar e aplaudir Fernanda Montenegro. Se você ainda não foi ver o filme no cinema, vá. Depois me conta. Desconfio que você vai se emocionar tanto quanto eu.
08.04.2025
Luciana Guerra Malta
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#fernandamontenegro
#conspiracaofilmes

Muito bem colocada as suas palavras. O filme foi muito bem observado e descrito aqui por você.
ResponderExcluirObrigada. Eu me emocionei muito com o filme e acho que é mesmo uma obrigação cívica assistir ao filme e prestigiar a Fernanda Montenegro.
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