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Conto - A Síntese

A Síntese


           Todo dia, às seis e meia da manhã, José Lourenço ia tateando com a bengala o calçadão de Copacabana. Vez por outra, dirigia-se ao acompanhante: O mar está de ressaca, não está? Hoje há mais gente do que ontem, não é mesmo? Estava invariavelmente certo. Desse modo, confirmava a teoria geral de que os cegos desenvolvem um tipo especial de visão.

Totalmente às escuras, lá se iam treze de seus oitenta e dois anos. A doença degenerativa incurável começou a cegá-lo quando mal passava dos cinquenta. E foi perdendo a capacidade de ver tão aos poucos, que aceitou com naturalidade quando sumiram as poucas formas que ainda podia distinguir.

            O ex-embaixador José Lourenço adorava uma boa conversa e era capaz de discorrer sobre praticamente qualquer assunto em sete línguas, inclusive russo e mandarim.  Aliada à sua vasta cultura, sua fleuma natural o havia transformado em uma espécie de ícone no meio diplomático. Era um homem, tudo levava a crer, livre dos arroubos a que conduzem as paixões. Poucos sabiam que, por um curto período de sua vida – Quanto tempo, exatamente, durara seu namoro com Maria Antônia? Um ano e quatro, cinco meses? -, ele havia se sentido o homem mais apaixonado do mundo. Pegava-se pensando nela (a sua Tônia) e logo fazia um esforço para pensar na falecida esposa, Cecília. A divisão em seu espírito acirrou-se de tal modo, que retomou o hábito do tempo em que Cecília era viva: ir à missa todos os domingos

           Na saída da igreja, sempre havia quem o saudasse. “Embaixador”, ouvia aqui e ali. Naquela manhã ouviu simplesmente “Lourenço” e arrepiou-se. Pela primeira vez, a cegueira revoltou-o a ponto de apertar-lhe o estômago: daria tudo, qualquer coisa para ver aquela figura.

- Tônia...

O trágico e o sublime de um fantasma é quando ele se materializa. Sim, era ela. Estava no Rio depois de quase sessenta anos em São Paulo. A viuvez recente a fizera voltar para uma temporada com a irmã. “É tão difícil continuar na mesma casa... ter que lidar, o tempo todo, com as lembranças.” Ele a entendia perfeitamente; também era viúvo. Um instante de silêncio e ela pousou a mão em seu ombro.

- Preciso ir, minha irmã está me esperando. Foi um prazer revê-lo.

O que ele devia fazer? Estender-lhe a mão, beijar-lhe o rosto? As palavras precipitaram-se de sua garganta sem que tivesse tempo de pensar.

- Nós podíamos tomar um chá.

- Por que não? É uma ótima ideia.

- Amanhã, às quatro?

Ela concordou e marcaram o encontro no restaurante de um hotel.

José Lourenço, naquela noite, mal dormiu. As recordações lhe vinham inexoráveis, como ondas do mar. A primeira vez que viu a jovem belíssima no bonde, o dia em que matou aula para segui-la até o Instituto de Educação e, depois, o primeiro beijo, atrás de uma árvore, no Leme. Um mês se passou e os beijos, cada vez mais ardentes, tinham virado uma necessidade. Acertaram de apresentar um ao outro às respectivas famílias. Ele foi aceito, sem problemas, mas ela saiu de sua casa quase escorraçada. Ele se revoltou, brigou, mas a família tradicional não podia ceder: era inadmissível que o filho namorasse uma mulata.  Não importava que ela fosse estudante aplicada, ou que tocasse Chopin ao piano divinamente.

Como ele estava perdidamente apaixonado, o namoro continuou, cada vez mais firme. A família, em represália, boicotou-lhe de todo jeito: deixaram de levá-lo para as festas; cortaram-lhe a mesada; o pai chegou a tomar-lhe o carro. A emenda foi pior que o soneto: de tão apaixonado, ele preferiu arrumar um emprego de despachante num escritório. Não bastasse isso, comunicou à família o propósito de se casar antes mesmo de concluir a faculdade de Direito. O inesperado, então, aconteceu: seus pais amansaram e, de súbito, Tônia transformou-se em convidada de honra na casa. Satisfeito com o rumo das coisas, ele aceitou viajar ao exterior com a mãe no fim do ano, para selar as pazes. Em Paris, conheceu Cecília. Ela se encantou por ele visivelmente, e José Lourenço, incentivado pela mãe, achou a situação muito prazerosa. Chegou a cortejar sutilmente a filha do embaixador brasileiro na Cidade Luz. De volta ao Brasil, porém, mal saiu do navio e tratou de procurar Tônia. Teve, de cara, uma surpresa desagradável: ela resolvera dar aulas de piano para auxiliar no orçamento doméstico. “Você é minha noiva. Como pode pensar em trabalhar?” Mas não houve argumento que a demovesse. Irritadíssimo, ele deu-lhe as costas e foi para casa. A mãe confortou-o, dando-lhe toda a razão. A partir dali, ela se empenharia em reforçar os contras da união sempre que tivesse uma chance. O resultado foi que Maria Antônia, aos poucos, tornava-se uma encarnação do diabo aos olhos de Lourenço. Nesse meio tempo, Cecília veio para o Rio e ele chegou à conclusão de que o destino havia lhe mostrado o caminho a seguir. Terminou o noivado com Tônia por carta e caiu nos braços de Cecília. Por fim, casaram-se e tiveram três filhas. Uma vida tranqüila, apesar das viagens. Ao longo de todos aqueles anos, no entanto, sempre pensara em como agiria se visse Tônia.

Bem ou mal, não podia vê-la realmente. Mas podia senti-la; jovial, cheia de vida. Durante o chá, descobriu que ela havia se casado com um fazendeiro e ido morar no interior de São Paulo, onde abrira  sua própria escola de música.

- Você lembra que sempre íamos ao cinema? – perguntou ele, de repente.

- Claro, não perdíamos uma estreia na Cinelândia.

Ele abriu um sorriso e teve a nítida certeza de que ela também sorria. Ressentiu-se por não poder enxergar-lhe a face. Nesse instante, uma pergunta ocorreu-lhe: a verdadeira cegueira não teria sido sua covardia? Sim, abandonara Tônia, no fundo, porque não aguentava ir contra a mãe. A consciência da própria fraqueza fez com que seus olhos se enchessem d’água. Uma meia confissão saiu-lhe, numa voz embargada:

- O pior cego é aquele que não se enxerga.

Alguns segundos se passaram e ele intuiu que ela havia captado o real sentido de suas palavras. Estranhamente, não sentiu alívio; ao contrário, foi acometido por uma raiva enorme de si mesmo. Estremeceu de repente, ao sentir a mão dela alcançar a sua sobre a mesa. Tônia, à vontade, pôs-se a falar de música – chegou a cantarolar baixinho algumas árias de Carmen. Como resultado, dissipou-se de vez a nuvem pesada dos erros do passado. Mas veio o inelutável; a despedida.

Um, dois, três dias... Lourenço andava à toa em casa. Se não tivesse sido tão fraco e submisso, pensava, teria Tônia a seu lado, tocando aquele piano que ninguém mais tocava (tinha um piano de meia cauda na sala). Que maluquice... à sua moda, amara Cecília e, mais ainda, amava as filhas. Podia, no entanto, ligar para Tônia. Apenas um telefonema, que mal havia? Mas para dizer o quê? De novo, ela o surpreendeu telefonando.

- Que tal irmos ao cinema?

- Você esqueceu que eu fiquei cego? – perguntou ele, abismado.

- É claro que não – respondeu Tônia, apressando-se em contar que, certa vez, uma amiga, fã de Gary Cooper, teimara em assistir à fita do ídolo, mesmo com uma vista operada. Já que ela enxergava pouquíssimo do outro olho, coubera à Tônia a tarefa de narrar-lhe o filme inteiro.

José Lourenço aceitou, lógico. A experiência correu às mil maravilhas e ele teve que enxugar as lágrimas mais de uma vez, porque seu coração estava explodindo de felicidade. Depois veio o lanche, e ele ficou tão grato e a harmonia era tanta, que não podia admitir a separação.

- Por que você não vai à minha casa, tocar um pouco de piano para mim?

Ela hesitou; ele pressentiu. Contra-atacou, então:

            - Depois de uma certa idade, é indecente ter pudor.

Tônia riu e o acompanhou. José Lourenço vibrou de prazer às primeiras notas da valsa de Chopin. Quis mais uma valsa e outra. Ficou tarde.

- Eu volto amanhã.

- Volte todos os dias.

- Se eu puder...

Um minuto se passou e brotou, dentro dele, um impulso irresistível: tocar o rosto de Tônia. Ele, então, abaixou-se e lentamente reconheceu-lhe as formas da juventude sob as marcas impressas pelos anos. O brilho nos olhos dela, seu coração dizia, também era o mesmo.  Trocaram um longo, interminável beijo.



Luciana Guerra Malta


9/11/2006

*Conto premiado no Concurso SESC de contos de 2009

Comentários

  1. Muito bom! Conto excelente!
    Estão presentes todos os elementos essenciais do Gênero: (poucos) personagens, espaço, tempo (muito bem condensado, abrangendo uma vida inteira), enredo/história muito bem elaborada, de uma ternura perspicaz, que transforma solidão, velhice e cegueira em um contraponto eficiente para escapar do lugar comum. Muito bem feito o pincelar da mentalidade da época (percebe-se metade do século XX), o preconceito explícito e a solução para impedir o "desvio" de comportamento do aceitável para a família abastada e bem conceituada. E,por fim, encontros, desencontros e reencontro.... deixando o final em aberto

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    Respostas
    1. Obrigada. Fiquei emocionada com suas palavras porque tenho esse compromisso comigo de olhar os personagens com ternura. Talvez eu já fizesse isso antes, daí, quando me dei conta, disse: Esse é meu compromisso. Não sei qual foi a ordem das coisas, mas quero chegar nos afetos dos seres humanos. É esse viés que me interessa.

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    2. Ah, a inspiração para esse conto veio de um conto do Orígenes Lessa, "As cores", que é absolutamente primoroso. Ali está a cegueira e o preconceito.

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  2. Que delícia ler um conto tão emocionante e bem escrito! Faz um bem imenso pra esperança da gente... Parabéns, Luciana!

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