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Mostrando postagens de 2024

Sobre "Ainda estou aqui"

“ Ainda estou aqui” inicia com uma reconstituição perfeita dos anos 70. Quem viveu esse período se sente à vontade, como se estivesse dentro da ação. Íntimos e cúmplices, acompanhamos a família feliz, o casal maduro ainda apaixonado cheio de filhos e amigos. Pessoas que não perdiam uma oportunidade de confraternizar numa época em que as pessoas se visitavam e famílias inteiras saíam à noite para tomar sorvete. Um tempo em que a inexistência do celular obrigava todos a interagir, não dava para cada um ficar isolado no seu mundo. Naqueles tempos, valia de fato o lema “um por todos, todos por um”.  Por outro lado, havia a grande ameaça no ar... Tem aquela expressão “amor que não ousa dizer seu nome”. No caso, era um ódio bem traduzido em um dos mais famosos slogans produzidos pelo regime militar na época: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Enfim, havia coisas “perigosas de se dizer”, por isso tantos silêncios e sussurros. No entanto, eram tempos felizes para boa parte da população, em que pa...

A nadadora e a neve

  A ssisti a dois filmes na semana passada, ambos na Netflix, e desde então, não consigo separar um e outro. Recomendo ambos: “Nyad” e “A sociedade da neve”. O primeiro é sobre Diana Nyad, uma nadadora que tentou fazer a travessia Cuba – Flórida quando tinha 28 anos e não conseguiu. Afinal, são 165 km em meio a correntes traiçoeiras, tubarões e águas vivas, entre outros perigos. Nada disso, porém, desanimou Diana, e aos 61 anos, ela retomou o sonho. Convicta do sucesso, ela decretou que não importa o tempo que se demora para realizar um sonho; o que importa é não desistir. Assim, lá foi ela com toda garra e obsessão buscar a realização de seu objetivo. Já “A sociedade da neve”, retrata a luta dos sobreviventes de um desastre aéreo na Cordilheira dos Andes, no início dos anos 70. Em sua maioria jovens uruguaios pertencentes a um time de rúgbi, eles enfrentaram a fome e o frio intenso, sobrevivendo apenas porque passaram a se alimentar dos mortos (não é spoiler falar disso porque a h...

O inferno são os outros

Você já tomou um choque ao descobrir o que as pessoas pensavam de você? Da boca para fora podemos dizer “os outros que se danem”, “a opinião alheia não me importa”, mas se é gente querida, próxima, se é gente que você tem em alta conta, a opinião pode ferir, e muito. Tem um ditado americano que, traduzido, diz que ninguém pode calçar os seus sapatos. Pode soar um pouco estranho para nós, mas quer dizer que ninguém pode sentir por nós, viver por nós. Enfim, ninguém pode saber o que é ser você. Como ninguém sabe de fato o que se passa dentro de alguém, procurar se defender é cair em uma armadilha. O tempo é mais bem gasto tentando melhorar a nossa vida, fazendo coisas boas por nós e para nós. As pessoas adoram apontar o dedo porque quem o faz se sente superior. Quando a gente amadurece, porém, entende que não existe pessoa superior ou inferior: cada um é o que é, somos todos únicos e não existe hierarquia nesse sentido. Agora, existe a vontade de fazer o bem, todos têm um mundo ideal...

Oyá

  O vento que entra pela janela faz a porta bater e me dá um susto. Esse vento derruba árvores, causa estragos pela cidade, faz barulho por onde passa. Tem um outro vento que sopra só dentro de mim. Esse, apesar de silencioso, não deixa nada no lugar. Sinto-o como um vento sagrado, não ouso tentar contê-lo. Ele vem com toda força e me faz lembrar a cena do lobo derrubando a choupana com um sopro na história dos Três Porquinhos. O vento leva de cara o que é frágil, o que não tem alicerce - o vento externo leva as coisas, o vento interno leva emoções, imagens e discursos que um dia fizeram sentido e hoje parecem ridículos (lembrando que todas as cartas de amor são ridículas, mas ridículo mesmo é quem nunca escreveu cartas de amor). Enfim, o vento que nos habita faz sua faxina, não tem jeito, e o que nos resta é continuar firme. De preferência, mais firme e mais forte. Terminada a limpeza, esse vento faz a curva em uma esquina que vai do coração ao cérebro, daí sai pela boca, nas pala...

A Malvada

Tem um filme antigo, em preto e branco, chamado “A Malvada”, que é simplesmente magnífico. É com uma atriz chamada Bette Davis, que foi uma das maiores que o cinema já teve. Posso dizer que ela tinha o olhar da Fernanda Montenegro, o glamour da Cate Blanchett, a capacidade da Merryl Streep de transmitir a emoção mais complexa em um segundo, e mais alguma coisa só dela que nunca existiu ou existirá igual. Nesse filme ela fazia uma grande atriz que de repente abria as portas para uma aprendiz de atriz. Todo mundo achava que a malvada era a diva, mas na verdade era a novata, que fez todo tipo de intriga até roubar o lugar da atriz famosa. Esse filme fez tanto sucesso que inspirou diversos outros filmes e até uma boa novela da Globo, “Celebridade”, de Gilberto Braga. Esse tipo de história fez e faz tanto sucesso porque todo mundo conhece gente assim. Em todo escritório, empresa ou família, tem um grande manipulador ou manipuladora, que vive a se fazer de vítima. Seu combustível é a inveja ...

O relógio e o tempo

Antes o tempo era marcado pelo relógio e correspondia a uma batida ritmada, a cadência dos segundos, que era como a batida do coração. Com o advento da era digital, o tic-tac deixou de existir e um segundo passou a ser bastante coisa. Essa unidade de tempo, que era só uma etapa irrisória da unidade chamada "minuto", virou uma medida substancial. Depois do Tik Tok, que jogou a pá de cal no velho tic-tac, recomenda-se que vídeos não passem de 15 segundos, porque ninguém aguenta vídeos “tão longos”. Os textos também devem ser curtos. O conteúdo encolhe e o cérebro também, claro. Li que já estamos menos inteligentes, pois o uso excessivo das redes diminui nosso foco atencional e prejudica o processo de memorização. Comecei a pensar nessas questões porque, revirando minhas gavetas, achei um relógio de pulso antigo. Ele parecia perfeito, o problema devia ser só a bateria... e era. Levei o relógio para o conserto e o moço colocou uma bateria nova por 20 reais, com garantia de um...

Um monte de coisinhas

  Esse ano uma amiga disse que me desejava um monte de coisinhas boas. Coisinha boa, para mim, vai desde pão francês quentinho até abraço de amiga, cafezinho com minha mãe, papo com os amigos, beijo na boca, mão na mão, olho no olho, música vibrante, chocolate, mate gelado, bolo fresquinho, salada colorida, passeio na floresta, banho de mar, livro, peça de teatro, filme, série, meditação... Quando a gente vê, o monte de coisinhas virou uma montanha. Aí, a gente sobe no topo e olha tudo de cima. Começo de ano melhor, posso garantir, é impossível. Não que 2023 tenha sido fácil. De jeito nenhum. Esse foi um ano esquisito. Parece, aliás, que todos os anos depois da pandemia ficaram esquisitos. Tudo menos intenso. Mas isso pode ser eu. Parece que a gente chega a uma determinada época da vida em que acha que as coisas não são mais tão intensas no mundo porque não são mais tão emocionantes para a gente. Não estamos mais descobrindo coisas a todo instante, não estamos mais tão dispostos a ...