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A nadadora e a neve

 


Assisti a dois filmes na semana passada, ambos na Netflix, e desde então, não consigo separar um e outro. Recomendo ambos: “Nyad” e “A sociedade da neve”. O primeiro é sobre Diana Nyad, uma nadadora que tentou fazer a travessia Cuba – Flórida quando tinha 28 anos e não conseguiu. Afinal, são 165 km em meio a correntes traiçoeiras, tubarões e águas vivas, entre outros perigos. Nada disso, porém, desanimou Diana, e aos 61 anos, ela retomou o sonho. Convicta do sucesso, ela decretou que não importa o tempo que se demora para realizar um sonho; o que importa é não desistir. Assim, lá foi ela com toda garra e obsessão buscar a realização de seu objetivo. Já “A sociedade da neve”, retrata a luta dos sobreviventes de um desastre aéreo na Cordilheira dos Andes, no início dos anos 70. Em sua maioria jovens uruguaios pertencentes a um time de rúgbi, eles enfrentaram a fome e o frio intenso, sobrevivendo apenas porque passaram a se alimentar dos mortos (não é spoiler falar disso porque a história é para lá de conhecida).

No primeiro filme, enfrentar a morte é uma opção; no segundo, é uma contingência. Mas tanto em um caso como em outro, é a força do coletivo que permite o avanço sobre as intempéries. Diane Nyad chega a dizer que a natação é um esporte individual, mas uma travessia como a sua só se torna possível com a união e o engajamento de várias pessoas. É um filme que põe em primeiro plano a amizade. No caso, entre a nadadora e sua treinadora, respectivamente interpretadas, de forma brilhante, por Annette Bening e Jodie Foster. No segundo filme, a sobrevivência também acontece graças à amizade. Em um momento, lê-se um bilhete onde está escrito: “Não existe amor maior que aquele que dá a vida por seus amigos”. Essa frase resume bem o espírito do filme, que ilustra como a preservação da vida pode se dar em condições tão adversas apenas se houver amor, que nesse caso é materializado como a mais profunda compaixão, evidenciada através de pequenos e grandes gestos. Logo no início, o amor dos rapazes que fazem o trabalho sujo de açougueiros poupando a todos; o amigo que ama tanto o outro que é capaz de lhe dar o último tablete de chocolate; o desapego dos próprios corpos, no entendimento de que o mais importante é a vida; o carinho do que guarda os pertences dos que se foram para que suas memórias não se percam. Os dois filmes, de alguma forma, falam do que se leva do mundo, o que realmente importa: o amor, o encontro, o empenho, a vontade.

Depois de assistir a “Nyad”, eu prometi que nunca mais ia desistir de nada. Depois de ver a “A Sociedade da neve”, eu disse que nunca mais ia reclamar. Foi muito importante para mim saber que pessoas de verdade viveram experiências tão cruciais. Isso me fez relembrar que a capacidade de superação do ser humano é mesmo infinita. Também me fez pensar que, afinal, somos todos feitos da mesma matéria-prima que esses heróis de carne e osso. E isso é confortador.

Luciana Guerra Malta

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