O vento que entra pela janela faz a porta bater e me dá um susto. Esse vento derruba árvores, causa estragos pela cidade, faz barulho por onde passa. Tem um outro vento que sopra só dentro de mim. Esse, apesar de silencioso, não deixa nada no lugar. Sinto-o como um vento sagrado, não ouso tentar contê-lo. Ele vem com toda força e me faz lembrar a cena do lobo derrubando a choupana com um sopro na história dos Três Porquinhos. O vento leva de cara o que é frágil, o que não tem alicerce - o vento externo leva as coisas, o vento interno leva emoções, imagens e discursos que um dia fizeram sentido e hoje parecem ridículos (lembrando que todas as cartas de amor são ridículas, mas ridículo mesmo é quem nunca escreveu cartas de amor). Enfim, o vento que nos habita faz sua faxina, não tem jeito, e o que nos resta é continuar firme. De preferência, mais firme e mais forte. Terminada a limpeza, esse vento faz a curva em uma esquina que vai do coração ao cérebro, daí sai pela boca, nas pala...
Registros de deslumbramento e perplexidade. Reflexões sobre a vida. Por Luciana Guerra Malta.