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Mostrando postagens de janeiro, 2024

Oyá

  O vento que entra pela janela faz a porta bater e me dá um susto. Esse vento derruba árvores, causa estragos pela cidade, faz barulho por onde passa. Tem um outro vento que sopra só dentro de mim. Esse, apesar de silencioso, não deixa nada no lugar. Sinto-o como um vento sagrado, não ouso tentar contê-lo. Ele vem com toda força e me faz lembrar a cena do lobo derrubando a choupana com um sopro na história dos Três Porquinhos. O vento leva de cara o que é frágil, o que não tem alicerce - o vento externo leva as coisas, o vento interno leva emoções, imagens e discursos que um dia fizeram sentido e hoje parecem ridículos (lembrando que todas as cartas de amor são ridículas, mas ridículo mesmo é quem nunca escreveu cartas de amor). Enfim, o vento que nos habita faz sua faxina, não tem jeito, e o que nos resta é continuar firme. De preferência, mais firme e mais forte. Terminada a limpeza, esse vento faz a curva em uma esquina que vai do coração ao cérebro, daí sai pela boca, nas pala...

A Malvada

Tem um filme antigo, em preto e branco, chamado “A Malvada”, que é simplesmente magnífico. É com uma atriz chamada Bette Davis, que foi uma das maiores que o cinema já teve. Posso dizer que ela tinha o olhar da Fernanda Montenegro, o glamour da Cate Blanchett, a capacidade da Merryl Streep de transmitir a emoção mais complexa em um segundo, e mais alguma coisa só dela que nunca existiu ou existirá igual. Nesse filme ela fazia uma grande atriz que de repente abria as portas para uma aprendiz de atriz. Todo mundo achava que a malvada era a diva, mas na verdade era a novata, que fez todo tipo de intriga até roubar o lugar da atriz famosa. Esse filme fez tanto sucesso que inspirou diversos outros filmes e até uma boa novela da Globo, “Celebridade”, de Gilberto Braga. Esse tipo de história fez e faz tanto sucesso porque todo mundo conhece gente assim. Em todo escritório, empresa ou família, tem um grande manipulador ou manipuladora, que vive a se fazer de vítima. Seu combustível é a inveja ...

O relógio e o tempo

Antes o tempo era marcado pelo relógio e correspondia a uma batida ritmada, a cadência dos segundos, que era como a batida do coração. Com o advento da era digital, o tic-tac deixou de existir e um segundo passou a ser bastante coisa. Essa unidade de tempo, que era só uma etapa irrisória da unidade chamada "minuto", virou uma medida substancial. Depois do Tik Tok, que jogou a pá de cal no velho tic-tac, recomenda-se que vídeos não passem de 15 segundos, porque ninguém aguenta vídeos “tão longos”. Os textos também devem ser curtos. O conteúdo encolhe e o cérebro também, claro. Li que já estamos menos inteligentes, pois o uso excessivo das redes diminui nosso foco atencional e prejudica o processo de memorização. Comecei a pensar nessas questões porque, revirando minhas gavetas, achei um relógio de pulso antigo. Ele parecia perfeito, o problema devia ser só a bateria... e era. Levei o relógio para o conserto e o moço colocou uma bateria nova por 20 reais, com garantia de um...

Um monte de coisinhas

  Esse ano uma amiga disse que me desejava um monte de coisinhas boas. Coisinha boa, para mim, vai desde pão francês quentinho até abraço de amiga, cafezinho com minha mãe, papo com os amigos, beijo na boca, mão na mão, olho no olho, música vibrante, chocolate, mate gelado, bolo fresquinho, salada colorida, passeio na floresta, banho de mar, livro, peça de teatro, filme, série, meditação... Quando a gente vê, o monte de coisinhas virou uma montanha. Aí, a gente sobe no topo e olha tudo de cima. Começo de ano melhor, posso garantir, é impossível. Não que 2023 tenha sido fácil. De jeito nenhum. Esse foi um ano esquisito. Parece, aliás, que todos os anos depois da pandemia ficaram esquisitos. Tudo menos intenso. Mas isso pode ser eu. Parece que a gente chega a uma determinada época da vida em que acha que as coisas não são mais tão intensas no mundo porque não são mais tão emocionantes para a gente. Não estamos mais descobrindo coisas a todo instante, não estamos mais tão dispostos a ...