O vento que entra pela janela faz a porta bater e me dá um
susto. Esse vento derruba árvores, causa estragos pela cidade, faz barulho por
onde passa. Tem um outro vento que sopra só dentro de mim. Esse, apesar de
silencioso, não deixa nada no lugar. Sinto-o como um vento sagrado, não ouso
tentar contê-lo. Ele vem com toda força e me faz lembrar a cena do lobo derrubando
a choupana com um sopro na história dos Três Porquinhos. O vento leva de cara o
que é frágil, o que não tem alicerce - o vento externo leva as coisas, o vento interno
leva emoções, imagens e discursos que um dia fizeram sentido e hoje parecem
ridículos (lembrando que todas as cartas de amor são ridículas, mas ridículo
mesmo é quem nunca escreveu cartas de amor). Enfim, o vento que nos habita faz
sua faxina, não tem jeito, e o que nos resta é continuar firme. De preferência,
mais firme e mais forte. Terminada a limpeza, esse vento faz a curva em uma
esquina que vai do coração ao cérebro, daí sai pela boca, nas palavras que são
ditas, ou sai assim por escrito. Essas palavras vieram do vento e serão
espalhadas por ele. Um dia o vento também vai enterrar essas palavras, mas aí
outros murmúrios expressarão outros significados. E assim caminha a
humanidade... o mundo nunca vai acabar enquanto houver o que ser dito.
23.01.2024
Luciana Guerra Malta

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