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A menina que queria ser escritora


Não conte às pessoas seus sonhos. Mostre a elas.


            - Não quero que você desista. Não pense em desistir, ouviu?
            - Não, é claro que não!
            Eu sorri e me despedi com uma troca de vagos “eu te ligo” e “vamos marcar”, que são os códigos cariocas para “adeus” e “até qualquer dia, se o acaso permitir”. Saí andando e pensei: Por que não respondi “Desistir? Tá doida? Desistir como? Escrever é a minha vida.” Pois é. Desde os nove anos quero ser escritora e, desde então, nunca deixei de sê-lo. Só que muito pouca gente sabe.
            Às vezes penso que devia montar um blog, divulgar mais o que escrevo, mas preciso ganhar dinheiro e fico achando que não dá para fazer tradução e revisão para viver e ainda gastar tempo divulgando a obra. Sou do tempo em que não se criava um projeto, criava-se uma obra. Sou do tempo em que não se começava um blog, começava-se um livro. Mas bem, vou parar de ranhetice, meu tempo é agora. Na verdade, tenho é preguiça de me adaptar. Acho difícil renunciar ao romantismo. Afinal, tudo era mais fácil quando, para ser escritor, bastava uma ideia na cabeça e lápis e papel na mão. Agora está tudo tão burocratizado e complicado... ninguém quer saber do texto em si. O importante é a apresentação, o projeto, o “layout”. É inútil mandar um texto para uma editora, por exemplo. Se eles não souberem quem você é, não vão publicar, por melhor que a obra seja. Você precisa ser conhecido por fazer outra coisa que não seja a literatura ou, se não for já uma celebridade, você precisa ter uma noção de marketing pessoal e autopromoção geniais para conseguir fazer com que seu livro, independente, venda. É claro, você pode furar a fila e saltar sobre o fosso, se conhecer alguém ou se for rico. Mas se você não é célebre, não tem paciência para fazer uma intensiva propaganda de suas obras nem tem dinheiro ou “conhecimento”, está fadado a escrever e guardar na gaveta. Ou melhor, em HDs que vão ser sucateados quando você for velho e estiver ocupado demais em sobreviver para pensar em preservar o fruto de suas paixões da juventude. Ou talvez você morra de repente e seu HD seja apagado para dar espaço a novas ideias, ou planilhas, ou matérias escolares, ou pornografia. Pensando assim, parece que escrever não tem sentido. Mas há um consolo: viver e morrer também não tem lá muito sentido, nascer para depois morrer parece não ter sentido algum, e nada, enfim, tem sentido por si, mas apenas o sentido que se dá. Sim, é a gente que escolhe, é a gente que define, é a gente que decreta que isso ou aquilo vale a pena. E eu, sei lá por que, aos nove anos resolvi decretar que minha vida só teria sentido se eu escrevesse.
Assim foi, assim é. Desde então, tenho que viver com a minha escolha. Mas nisso, não sou diferente de ninguém. Todo mundo tem que arcar com suas escolhas. Só que os escritores, apesar de meros mortais, por algum motivo se sentem diferentes do resto. Desconfio, aliás, que de tanto se sentirem diferentes, acabam se diferenciando mesmo. Vejam bem: escritores não parecem mais densos do que as outras pessoas? Densos, intensos, perturbados? Se você conhece um escritor, certamente, já notou que ele é alguém que tem um hábito (talvez muito inconveniente) de questionar tudo e todos. Escritores parecem mais insatisfeitos, mais desejosos de viver certas experiências só por tê-las na bagagem (para poder depois transformar em literatura, lógico). Escritores precisam ficar mais sozinhos que a maioria das pessoas. Escritores são sempre viciados em alguma coisa: álcool, drogas ou mesmo café (como eu). Escritores não servem para nada, mas se servem de tudo que acontece para compor sua obra. Escritores são uma invenção; são escritores porque inventam que o são... alguns convencem a todos, outros não.
            Fico pensando por que não convenci os outros de que sou uma escritora. Será que eu mesma não acredito? Será que não me acho boa o bastante? Será que estou cismando que há uma motivação racional para o sucesso quando, na verdade, é tudo uma questão de sorte? De repente não dei sorte, de repente ninguém me descobriu, de repente...
É sempre assim. Sempre que sinto amargura diante do mundo e acho que foram injustos comigo e que sempre vão ser – então, não adianta tirar foto sorridente para postar no Facebook anunciando a publicação de mais uma obra-; sempre que chego nesse ponto, em que tenho essa vontade louca de chutar esse balde que não pode ser chutado de jeito nenhum porque escrever é mais forte do que eu; sempre que me vejo nesse lugar, eu respiro fundo, sorrio e penso: Tudo bem. Afinal, a amargura vai passar, a aflição, mas minha obra fica, e eu sou minha obra, mesmo que ninguém preste atenção nela.
            Conheço atores e atrizes, pintores, poetas, todos com essa mesma determinação. Somos um exército de anônimos fazendo uma arte que quase ninguém vê. Ninguém nos entrevista, ninguém nos dá espaço, ninguém nos reconhece, mas seguimos, a despeito de vivermos nas sombras. Quem vê, diz que somos teimosos, mas não é isso: é que a arte, para nós, é como o ar que respiramos. Para mim, por exemplo, essas letras são um pedaço da minha vida, o registro de um momento. Não são letras vazias. Quero, com elas, formar um sentido que, afinal, dê sentido à minha vida. Gostaria que desse sentido às vidas de outras pessoas também, mas nem sempre se pode ter tudo. A não ser, claro, nos livros de autoajuda. De acordo com eles, podemos tudo. É uma pena que esse tipo de literatura – autoajuda - venda tanto. É uma pena que as pessoas hoje prefiram comprar livros que vendam certezas, em lugar de livros que lhe provoquem questionamentos.
            Uma boa maneira de não se ficar tão chateado por não fazer sucesso hoje é pensar: Estamos mesmo em tempos medíocres. Dá para repetir isso como um mantra, basta passar 15 minutos navegando nas mídias sociais.
Mas droga, meu tempo é agora. Se há muita mediocridade, há também gente pensante, como eu. Só preciso dar um jeito de chegar a eles. Preciso lançar a garrafa com a mensagem de SOS no mar. Alguém vai pegar, alguém...
            É, talvez seja melhor montar um blog, escrever um projeto. Talvez seja melhor me render à realidade do que brigar com ela. “Em Roma, aja como os romanos”. Na Terra, aja como os terráqueos. Então, vá lá, Luciana, saia do mundo da lua, aproveite a sugestão de sua melhor amiga e escreva uma crônica para ver se publicam. Talvez nada aconteça, talvez seu texto não tenha nenhuma repercussão, mas não importa. O importante é essa coisa brega que chamam de “voz do coração”. Toda vez que a sigo me sinto livre, feliz e preenchida. No final, isso é bem mais importante e valioso do que qualquer fim de semana na Ilha de Caras.

Obs: Esse texto foi escrito em meados de fevereiro deste ano. E foi depois de toda essa elucubração, que nasceu esse blog e a página no Facebook: https://www.facebook.com/cronicasdeluciana

Luciana Guerra Malta



           
           

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