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Mostrando postagens de 2016

Primeiro Assédio

Tudo começou como uma onda. Primeiro, veio o projeto de lei de Eduardo Cunha (PL 5069) dificultando o acesso da mulher a atendimento médico em casos de estupro. Depois, veio o caso de desejos pedófilos que vieram à tona tendo como alvo Valentina, uma participante de um programa de TV culinário de 12 anos. O caso gerou tanta revolta que fez uma ONG feminista criar a campanha #PrimeiroAssedio, com o objetivo de incitar suas seguidoras a relatarem o primeiro caso de assédio sexual de suas vidas. Foi uma catarse, mais de 80 mil depoimentos. Logo em seguida, surgiu a notícia de que o pré-candidato à prefeitura do Rio Pedro Paulo, menino de ouro do atual prefeito, tinha agredido sua mulher violenta e covardemente pelo menos duas vezes. Na ocasião em que escrevo essa crônica, Pedro Paulo ainda é candidato. Eu e minhas amigas e tantas outras feministas que conheço torcem para que ele deixe de sê-lo em breve, mas é impossível prever o que pode acontecer, diante da insistência do prefeito do ...

O Mundo

Ela anda ansiosa. Resolve, então, tirar uma carta do tarô. A primeira carta que vem é O Mundo. Ela pensa logo que talvez seja sinal de que o mundo ficará a seus pés e, de fato, descobre no livro presenteado por um ex-namorado que O Mundo simboliza o sucesso, a vitória e a perfeição em qualquer empreendimento. Aquilo já era auspicioso, mas o que a carta significaria exatamente no amor? Mais duas páginas e aprende que a carta significa que o casal alcança o entendimento de todos os defeitos e qualidades um do outro. Significa, enfim, a superação de todas as diferenças ou "o final feliz dos contos de fadas, em que o amor passa por várias provações e no final dá tudo certo".  Ora, nasce um conflito dentro dela: por um lado, não quer se deixar levar e dar valor a esse tipo de coisa; por outro, quer acreditar plenamente que existe alguma razão nessas coisas absolutamente irracionais, como tarô, ou horóscopo, ou quiromancia. Seu signo combina com o meu, pensa... e quem s...

Nise: o coração da loucura

Voltando do filme "Nise: o coração da loucura". O que posso dizer? O roteiro é maravilhoso, não há "barriga", nada sobra, não se carrega no drama. Tudo que se quer é contar, com o máximo de honestidade, uma bela história. E é isso que Nise diz em determinado momento, sobre um dos internos: Tudo que ele quer é nos contar sua história. A resposta dele vem tempos depois: A janela vira paisagem... um dia ela abre, mas dá trabalho. A grandeza da figura de Nise é impressionante. Tudo que aquelas pessoas à margem da sociedade precisavam era de alguém que quisesse ouvi-las, que se interessasse por suas histórias ou melhor, por suas vidas, porque a história de cada um é a sua própria vida e vice-versa. Elas precisavam de alguém com aquela que talvez seja mesmo a maior das qualidades humanas, a compaixão, isto é; a capacidade de entender o outro, de se ver no outro. Para tanto, é preciso se despir de preconceito, e só se despe de preconceitos quem não tem medo do outro...

A Juventude - Nota sobre o filme

Hoje vi "A Juventude". O filme é dirigido pelo italiano Paolo Sorrentino e lembra aqui e ali "A Grande Beleza", mas longe de ter a mesma exuberância, a "Juventude" tem um requinte visual comedido, em tons pastel, pálido como o outono da vida, a fase que vive o octogenário personagem de Michael Caine, Fred, e seu amigo inseparável, Mick, interpretado por Harvey Keitel. Michael Caine reina, absoluto. Harvey Keitel, em segundo plano, comparece com o charme e a intensidade de sem pre. Fred é um maestro (conductor, em inglês). Ele sabe conduzir uma orquestra, mas depois dos 80 tem bem claro que não soube conduzir muito bem a própria vida. Em meio à preocupação de Mick, cineasta, em fazer seu filme testamento e à resistência de Fred de sair da aposentadoria para reger uma orquestra em uma homenagem à Rainha Elizabeth, eles se preocupam com a próstata e com o funcionamento regular da bexiga. Jane Fonda aparece bem enrugada, mas com a mesma energia de...

Biscoito Fino

A massa não há de comer o biscoito fino que fabrico, porque não o fabrico para a massa. Nada contra os muitos, nenhuma preferência específica pelos poucos. Apenas a certeza de que me atraio mais pelo sussurro do que pelo grito. O mundo anda falando muito alto e batendo no peito e chutando coisas. O mundo já foi mais sutil, mais misterioso, menos prêt-a-porter. Fico com esse mundo semi-escondido, semi-revelado... não por saudosismo, mas apenas pelo imenso amor que tenho pelo mistério. Em nome de Clarice, em nome de Cecília, em nome de Neruda; Pessoa também me abençoando do alto... em nome de todos eles eu olho em volto e digo: Aceito o mistério. A massa não gosta de mistério. Já eu, troco qualquer evidência por uma boa dúvida.

Humanos e Unicórnios

Nem tudo é para ser. Nem tudo é. Mas sempre se pode fazer do improvável uma concretude. O problema é que o improvável pode assumir a forma de um minotauro ou unicórnio... daquelas criaturas mitológicas que chamamos de imaginárias. E para os pragmáticos, seres que não podem ser tocados não existem. Ora, eles esquecem que tudo, no que diz respeito ao homem, começa com a imaginação. Aliás, dizem que o próprio homem começou assim: na mente de Deus.

Amor, amor

O amor nasce com beijinhos e toques e corpos que se entrelaçam entre pressentimentos, transmissões de pensamento, incompreensões, dilemas, desconfianças, arrepios. O amor nunca é idílio; quando nasce é sempre infernal – doce inquietude é uma boa expressão para defini-lo. Quando ele se torna sinônimo de paz é porque já morreu e se amalgamou com sua irmã mais velha, a amizade. Tudo é bom. Amor, amizade. Talvez o ideal seja que o irmão mais novo e travesso ande junto com sua irmã mais velha. Mas o amor resiste e só dá a mão para quem quer.

O ponto e a vírgula

Não quero ver. Não, quero ver. Foi assim por acaso, com uma frase atrás da outra, que descobri, há 25 anos, no meio de um conto, o poder da vírgula. A vírgula é uma pausa no texto que pode mudar tudo. A pausa, na vida, é uma vírgula que pode mudar o mundo. A vida é um texto sem pontuação. O texto é uma vida pontuada. Fiquemos, pois, com o ponto parágrafo, daquele que leva a um novo princípio na linha de baixo. E ponto final.

Todo escritor devia ter um amor

"Todo escritor devia ter um amor para abraçá-lo quando a dor dos personagens entra nele. Alguém para dizer: É só uma história, é faz de conta. Sem uma voz para dizer isso, sem um par de braços para nos apertar contra o peito, nós, escritores, não temos como sair de dentro da história que nós mesmos inventamos. Em suma, todo escritor precisa de um amor, mesmo que inventado, para trazê-lo de volta ao mundo real." (Trecho do conto "Solidão do escritor", de minha autoria)

Uma coroa nas manifestações

Tenho 46 anos. As pessoas me dão menos, dizem que sou “bem conservada”, mas não adianta: tecnicamente, sou uma coroa.                  Sempre fui “revoltada”. Lembro que fiquei inconsolável em 1984, aos 14 anos, quando minha mãe me proibiu de ir ao comício das Diretas Já na Candelária. Depois disso, lembro de ter tentado me infiltrar numa manifestação dos caras pintadas em 1992, contra o Collor, mas me senti muito “coroa” para estar ali. E olha que eu tinha só 23 anos. Acontece que, quando tinha metade da minha idade atual, talvez estivesse muito preocupada com a opinião dos outros, não queria “pagar mico”. Aos 46 anos, bem, depois de ter pago tantos micos que daria para povoar um santuário de vida selvagem na África, eu simplesmente parei de me preocupar com o que os outros estão pensando. OK, estou quase chegando no presente. Veio 2013 e a desgraça absoluta que foi Marco Feliciano na Comissão de Dir...