Hoje vi "A Juventude". O filme é dirigido pelo italiano Paolo Sorrentino
e lembra aqui e ali "A Grande Beleza", mas longe de ter a mesma
exuberância, a "Juventude" tem um requinte visual comedido, em tons
pastel, pálido como o outono da vida, a fase que vive o octogenário
personagem de Michael Caine, Fred, e seu amigo inseparável, Mick,
interpretado por Harvey Keitel. Michael Caine reina, absoluto. Harvey
Keitel, em segundo plano, comparece com o charme e a intensidade de sempre.
Fred é um maestro (conductor, em inglês). Ele sabe conduzir uma
orquestra, mas depois dos 80 tem bem claro que não soube conduzir muito
bem a própria vida. Em meio à preocupação de Mick, cineasta, em fazer
seu filme testamento e à resistência de Fred de sair da aposentadoria
para reger uma orquestra em uma homenagem à Rainha Elizabeth, eles se
preocupam com a próstata e com o funcionamento regular da bexiga. Jane
Fonda aparece bem enrugada, mas com a mesma energia de gata indomada dos
tempos de Barbarella. Entre tantas belas cenas, Fred regendo as vacas
no campo é dos instantes mais poéticos já produzidos pelo cinema. Em
certo momento do filme, Mick diz que o importante são as emoções e a
gente conclui que da vida nada se leva, mesmo. Quando o fim se aproxima,
o que resta, o que consola, o que dá sentido ao tempo que se arrasta
são as experiências vividas. Há portanto, que se viver intensamente.
Para no fim da vida, poder se apresentar para a rainha sem tremer na
base. É certo que nem todo mundo vai se apresentar para a rainha como
Fred, mas há sempre alguém cujo aplauso é tão importante para nós quanto
o da monarca para seus súditos. A vida, enfim, talvez seja apenas um
grande acerto de contas, numa conta que não fecha jamais e que por isso
gera arte, e filmes bonitos como esse.
14.04.16
14.04.16
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