Ingrid e os Robertos
Ela desembarcou e olhou para os lados. Não estranhou, todos os aeroportos
se parecem. O choque começou no táxi – o motorista falando sem parar, o rádio
altíssimo – e cresceu na estrada – as favelas ao longe, os carros se
aproximando muito e depois zunindo.
Ingrid vinha atrás de um grande amor. Roberto era o nome dele.
Apaixonaram-se de repente, decidiram morar juntos num impulso, entraram em
crise um ano depois.
- Não aguento mais, Ingrid! Será que você não entende? Eu sou humano, não
posso fazer tudo certo. Aliás, nem quero fazer tudo certo. Não sou alemão, não
me sinto na obrigação de provar nada. No início até gostei, confesso. Da mesma forma que eu era
exótico pra você, você era exótica pra mim. Mas agora eu vejo o que você quer:
uma rotina imutável. É assim que se sente segura... e você, como boa ariana,
precisa se sentir segura! Mas eu sou brasileiro, detesto a rotina. Sou do tipo
que não para de sonhar... só assim me sinto vivo.
Ele foi embora para o Brasil e ela se sentiu morta. Os meses se passaram,
veio o inverno. Ingrid não aguentou. Intensificou as aulas de português e
comprou a passagem.
Chegou no Rio de Janeiro. Quarenta graus. Entrou no quarto do hotel e foi
direto ao banheiro. A sensação, sob a ducha forte, era de que anos de poeira
europeia escoavam pelo ralo, junto com o suor recém-adquirido nos trópicos.
Trêmula, Ingrid apertou as teclas do telefone.
- O Roberto está?
- Ele saiu.
- Quem fala é uma amiga, da Alemanha...
- Aqui é a mulher dele. Você quer deixar algum recado?
A mão de Ingrid se abriu e o fone caiu no chão. Ouviu dezenas de vezes a
palavra “alô”. Por fim, desligou.
O choro explodiu. Casado... que tremendo cafajeste. Casado... como dizia
sua avó austríaca, homem nenhum presta. Casado... como ele podia ter feito isso
com ela?
Dormiu de cansaço. Acordou com os olhos inchados e foi tomar café da
manhã. Admirou as frutas, mas teve medo de provar. Temia contrair vermes.
Brasil, terra de parasitas, em todos os sentidos - esse pensamento justificava
a atitude de Roberto, mas não acalmava seu coração. O fato é que não podia voltar
para a Alemanha. Não daquela maneira, de uma hora para outra, sentindo-se uma
derrotada. Não, não seria abatida pelo primeiro revés. Bradou para si que,
afinal, era uma alemã legítima, fruto de um país reerguido dos escombros da
guerra.
Bastava dar tempo ao tempo, como se dizia. Porque a vida é mesmo uma
caixa de surpresas, onde quer que se esteja... e ela acabaria por constatar
que, no Brasil, essa máxima se aplicava como em nenhum outro lugar. Estava
almoçando sozinha num restaurante e uma criança se aproximou. Ela conversou um
pouco e vieram os pais. Instantes depois, convidada pelo casal, estava numa
roda de samba, no bar da esquina. No dia seguinte, comia churrasco na casa
daquelas pessoas. Principiando a noite, apresentaram-lhe um tal de Roberto. Ela
crispou-se à simples menção do nome, de tal forma que acabou se transformando
na antipatia personificada.
Ele até que não se parecia com o seu Roberto. Era muito educado, calmo.
Quanto mais azeda ela ficava, mais gentil ele se mostrava. Só que, em
determinado momento, quando as caipirinhas já tinham se potencializado, ela
perdeu o controle.
- Você ainda não percebeu que eu não quero conversa? – perguntou, com os
dentes trincados.
Ele ergueu as mãos como se ela lhe apontasse uma arma.
- Eu disse algo errado? Ofendi você?
Ela abriu a boca, mas não ousou emitir som. Não tinha resposta. E nada a
irritava mais do que não poder responder uma pergunta. Acendeu um cigarro.
Olhou-o nos olhos.
- Eu não estou bem. É isso.
Sentiu que se abrira excessivamente para um desconhecido. Pigarreou.
- É dor de cabeça – mentiu.
- Que chato.
- Muito.
- Eu conheço alguns pontos energéticos. Quero dizer, posso fazer uma
massagem...
- Não... – ela praticamente gritou, levantando-se. – Não precisa. Eu vou
embora. Vou dormir, sabe?
- Eu levo você no meu carro.
Ingrid arregalou os olhos. Duas bolas azuis. De mansinho, ele tocou-lhe o
braço.
- Vocês são todos iguais! – explodiu ela, livrando-se bruscamente. –
Insistem enquanto não conseguem o que querem. Depois, jogam pro alto.
- Mas eu não quero nada...
Ela sorriu amargo, as lágrimas a ponto de correr. Não retrucou. Virou-se
e desapareceu.
Dentro do quarto do hotel, lutava contra o choro. Homem brasileiro, homem
em geral... por que havia nascido mulher?
O telefone tocou.
- Boa-noite, aqui é da recepção. Tem um senhor aqui, chamado Roberto...
Ela desligou, soltando um grito. A campainha tornou a chamar. Ela olhou o
aparelho como se enxergasse uma barata, um rato, um bicho repulsivo. De forma
lenta, esticou o braço e apanhou de novo o fone.
- A senhora está bem?
- Estou.
- Tem um senhor aqui, chamado Roberto, que a conheceu num churrasco. Ele
quer falar com a senhora.
- Diga que eu morri.
- Morreu? Mas...
Ela pôs o fone no gancho. Andou pelo quarto, pegou um copo e tomou uma
dose de whisky.
Na manhã seguinte, as flores e um papel indicando hora e local para um
encontro. Manhãs transcorrendo... e as mesmas rosas, o mesmo cartão, a mesma
assinatura: Roberto.
Naquele dia, ela acordou como de hábito às sete da manhã. Mal-humorada,
largou a chave no balcão do hotel. A recepcionista disse bom-dia e deu-lhe as
costas. Ingrid não se mexeu.
- Não tem nada pra mim?
- Não.
- Nenhuma... flor?
- Não.
Ingrid ficou imóvel, com um ar de decepção tão evidente, que a moça se
sentiu na obrigação de emendar, sem graça:
- Às vezes, as entregas atrasam. Quem sabe?
Quando retornou, não havia sinal de flores. Nem naquele dia, nem no
próximo, nem no restante da semana.
Mais uma vez despertou de uma noite mal dormida. Dispensou o café, indo
direto à recepção.
- Alguma flor?
- Não, senhora.
Bar Astor. Praia de Ipanema. Espero
você às 19:00.
Os bilhetes rasgados permaneciam em sua memória. Às seis da tarde,
lembrava uma gata no cio. Às seis e meia, andava para lá e para cá, como um
leão enjaulado. Às quinze para as sete, não suportou. Vestiu-se em tempo
recorde, desceu, pegou o táxi, irrompeu no restaurante, localizou a mesa,
chegou perto.
- Finalmente você veio.
Roberto fez um gesto para que ela se sentasse. Ela obedeceu, cruzando os
braços.
- Ninguém nunca me rejeitou dessa maneira, Ingrid. Eu queria saber o
porquê.
Ela suspirou. Sabia que o discurso soaria ilógico. Pediu perdão à Escola
Racionalista, a qual estava prestes a trair.
- O seu nome.
As sobrancelhas dele juntaram-se em perplexidade. Ingrid mordeu o lábio.
Não esperou que ele falasse.
- Roberto... foi o homem que eu mais amei e que mais me magoou.
- Há milhões de Robertos no mundo!
- Há milhões de mulheres também. Por que eu?
Roberto pensou, alisou os cabelos. Fitou-a.
- Quando nos conhecemos, eu disse que não queria nada de você, mas era
mentira.
O coração dela disparou. Fez a pergunta com dificuldade:
- O que você quer?
Ele se inclinou para a frente, os olhos tão brilhantes que pareciam duas
contas negras de vidro.
- Eu quero que você sonhe comigo.
- Sonhar o que, meu Deus?
- Uma vida.
Brasileiro... bicho maluco. Saíram juntos, dançaram, percorreram boa
parte do calçadão, admiraram a lua, beijaram-se, amanheceram bebendo
água de coco.
Ingrid o levou para o hotel. Na penumbra, antes de dormir, ela sonhou
acordada junto com ele. Foram visões sucessivas de um futuro que ele pintava
como um quadro idílico, multicolorido, impossível de não ser vivido. Foi ali
que ela entendeu o que era “sonhar uma vida”. Dias depois, resolveu adiar por
uns tempos sua volta a Berlim. Antes, ligou para seu chefe no departamento de
pesquisa da universidade. Ele quis saber o motivo de sua decisão. Ela explicou que
tinha cansado de tentar ser perfeita e que precisava correr riscos. Ele achou a
justificativa tão insólita, que limitou-se a perguntar:
- Você vai viver do quê no Brasil?
- De sonho – ela respondeu, sem vacilar.
- Como? Não entendi.
- Vou sonhar uma vida.
Como ele continuasse em silêncio, ela acrescentou:
- Você é tão ariano, que não entende...
Um ano e meio depois, radicada em Santa Teresa e grávida de um futuro Roberto,
Ingrid escreveu para seu antigo chefe. Para começar, fez questão de decretar
que a Escola Racionalista estava definitivamente ultrapassada. Por isso, trabalhava
numa tese que juntava lirismo e filosofia, mas que falava, sobretudo, do começo
de qualquer coisa que realmente vale a pena: o sonho. Disse, ainda, que as portas
de sua casa estavam sempre abertas para ele. A única coisa que pedia, caso ele
se aventurasse, era que viesse disposto a perder algumas certezas. Afinal, era
essa a lição dia após dia aprendida com Roberto: para ser feliz, há que se
trocar as certezas pelas possibilidades. E tomada pela emoção, encerrou a carta ali
mesmo, com aquelas reticências, para não trair o que havia acabado de
professar.
FIM
Luciana Guerra Malta - revisado em 8/05/2015
Comentários
Postar um comentário