Os políticos, de tempos para cá,
têm radicalizado a aposta de dividir para governar. Há anos o nosso país foi
dominado pela retórica do “nós contra eles”, mas agora se chegou a um nível
nunca antes visto. Um discurso de posse absolutamente agressivo, praticamente apenas
atacando os setores derrotados da eleição, foi algo que nunca vi nesses meus 49
anos de vida. Fico pensando cá comigo se as pessoas vão continuar aplaudindo
tal comportamento, se a testosterona vai continuar em alta e nunca mais ouvirei
nesse país as pessoas falarem em paz, amor, bem estar social, igualdade,
dignidade, cidadania, direitos humanos. De repente, tudo que remete à harmonia
virou “fraqueza”, “mimimi”, “papo de comunista”.
A incapacidade de exercer o
pensamento crítico da maioria também é impressionante. A massa acredita em
tudo, absolutamente tudo que seja veiculado pelo lado dos bolsonaristas, por
mais estapafúrdio que seja. E tudo que os desabone é desacreditado, mesmo os
fatos (a corrupção de Queiroz a favor dos Bolsonaros, o caixa 2 de Onyx, ministros
processados por improbidade administrativa e corrupção). Tudo é colocado no rol
de “armação dos petistas”.
É complicado quando você cresceu
acreditando em valores como honestidade, amor, solidariedade,
fraternidade e igualdade e se dá conta de estar vivendo em uma sociedade onde
as pessoas desprezam tudo isso com todas as forças. Enfim, tudo que você
aprendeu a enxergar como nobre, de uma hora para outra, virou “mimimi”. Bem, pensando
melhor, não foi de uma hora para outra. Na verdade, confesso que fiquei muito
incomodada quando a esquerda passou a classificar quem não votava em seus
candidatos como “coxinhas”. Eu me senti incomodada porque nunca fui radical,
porque sempre me considerei social democrata. Eu não era “coxinha”, mas também
não abraçava devaneios estatizantes. Então, não gostei. Não gostei da
depreciação dos adversários, da campanha suja que fizeram contra a Marina
Silva, detestei a ideia de se passar por cima de princípios para chegar - no
caso, se manter - no poder.
Vieram, então, essas eleições de
2018 e tudo que veio antes começou a parecer coisa de jardim de infância. Houve
fake news de ambos os lados, com certeza, mas os bolsonaristas produziram (e
continuam produzindo) fake news em escala tão impressionante que não há como
negar que as fake news viraram sua marca registrada. Não adianta a grande
imprensa desmentir as fake news enviadas pelo Whatsapp, porque a grande
imprensa já foi desacreditada por esses mesmos canais que se expressam através
de uma infinidade de grupos na rede social preferida dos brasileiros. Ou seja,
os veículos da grande mídia seguem em sua tarefa inglória de revelar a falsidade
das notícias, em vão. Só quem já sabia que as notícias eram falsas chega a ver
essa comprovação. Quem acreditou nelas não vê porque não lê jornal ou quando,
por acaso, vê o desmentido, diz comumente que a grande imprensa é mentirosa,
“vendida”, etc. Em última instância, para fechar a conversa, essa pessoa diz
que pouco importa, pois “a esquerdalha não presta mesmo”. Por mais que se prove
que notícias são falsas não importa. Há um desprezo pela verdade apavorante.
É engraçado que os
bolsonaristas radicais agem como papagaios reprodutores de discursos, mas se
sentem empoderados porque, pela primeira vez na vida, eles veem chegar ao poder
alguém com um discurso sob medida, que não menciona assuntos dos quais eles
desconhecem o significado, como representatividade, por exemplo. Ao contrário,
o novo presidente fala que “bandido bom é bandido morto”, “vamos banir os
vermelhos”, “o Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”. E o discurso do homem que chegou ao poder soa
como música aos ouvidos da massa, para quem chega dessa história de inclusão -
que as minorias se danem, o que importa é a maioria. Há aí um reforço religioso
para corroborar tal ideia: a pessoa seria predestinada, teria uma determinada
origem por vontade divina; os escolhidos seriam aqueles sem marca de nascença.
Eles teriam nascido brancos, heterossexuais e seriam de classe média ou ricos, jamais
miseráveis. Os escolhidos jamais nasceriam “marcados”, portanto, não seriam índios,
quilombolas, homossexuais ou nasceriam em situação de rua, por exemplo. Eis aí
um fascismo com um viés fundamentalista simplesmente assustador, que a gente não pode
saber onde vai dar. O que nos resta é torcer para que o resultado final não
seja tão ruim quanto parece que vai ser. Não é uma questão de torcer contra,
acontece que os sinais de que se deseja a guerra e, não, a paz, estão aí, por
todos os lados. Não basta gastar um minuto dizendo que vai governar para todos
se os outros nove minutos são gastos renegando avanços como o politicamente
correto (que justamente mira a inclusão), a discussão de gênero, o debate nas
escolas ou depreciando o comunismo que, afinal, é uma ideologia que influenciou
a social democracia ao ponto de nos propiciar conquistas e avanços sociais que
seriam impossíveis se o mundo tivesse ficado restrito ao liberalismo. O povo
tinha que saber o que foi a Revolução Industrial, em que contexto o comunismo
surgiu e saber que não teríamos direitos trabalhistas se não fosse pela luta
comunista. Ter consciência disso não torna alguém comunista, assim como
assistir a programas que ressaltem a diversidade não o tornará transexual ou
homossexual. Aliás, uma pessoa, segundo a Ciência, não se torna, mas nasce
trans ou homossexual. Ora, se orientação sexual é de nascença, por outro lado, não
há genes que definam ideologia. Portanto, não se nasce comunista nem
fundamentalista. Pessoas decidem abraçar ideologias e credos. Infelizmente,
pelo que se vê, pessoas também viram zumbis, que acreditam em qualquer coisa.
Não há muita diferença em alguém que acredita em todas as fake news que lhe chegam
via Whatsapp e um terrorista que deixa explosivos em uma estação de metrô.
Ambos estão cegos, não veem mais nada além do seu credo, seu ideário. A diferença
é que um resolve explodir quem não compartilha seu credo e outro prefere
simplesmente deixar que os diferentes se explodam: “que se danem as minorias, o
que importa é a maioria”. Se índios e quilombolas vão morrer de fome, problema
deles. Se os aposentados vão ficar na miséria com a mudança para o sistema de
capitalização, azar o deles, “porque não vou me aposentar tão cedo”. Só que a
conta vai chegar: as terras degradadas vão resultar em mais aquecimento,
catástrofes naturais e escassez de água; e um dia a juventude vai passar e vai
chegar a hora da aposentadoria. A saída vai ser o quê? Se matar, como atesta o
altíssimo índice de suicídios no Chile depois da mudança do sistema de
aposentadoria de pública para privada?
O povão também não se interessa
pelo fato de terem passado a atribuição da demarcação de terras indígenas para
a pasta da Agricultura, tampouco se interessa pelo fato de a Ministra da
Agricultura ter o apelido de “Musa do Veneno” graças à sua defesa incondicional
dos agrotóxicos. O povão não se importa se daqui a alguns anos vai ter um
câncer por causa do consumo de agrotóxicos ou de carne cheia de antibióticos. O
povão só se importa com o aqui e agora e isso é reflexo de uma péssima
educação. Educação que, diga-se de passagem, não se resume à educação formal,
mas se estende ao debate contínuo, em todas as instâncias, e ao apreço à cultura.
Não adianta ter estudado na melhor escola e nunca ter posto os pés num museu ou
achar que arte é lixo, teatro dá sono e livro é aquela coisa antiga que serve
para decorar a estante. O abismo não se dá apenas entre classes sociais. Ricos
e pobres que não leem e desprezam a cultura têm mais ou menos o mesmo discurso. Os outros, independente de classe, infelizmente são minoria. E se o que importa
é a maioria, tem muita gente com todos os motivos do mundo para temer o que
está por vir... temer mais sem Temer do que com Temer. Um Temer enfraquecido
parece menos assustador que um Bolsonaro empoderado. Collor, por exemplo, era conservador, mas
falava em acabar com os “marajás”. Já no âmbito do novo governo, jamais se
discutem os privilégios. Bolsonaro não liga que seus ministros sejam condenados
por caixa 2, improbidade administrativa ou corrupção, tampouco quer acabar com
a prática de assessores parlamentares serem laranjas que doam seus salários de
volta para que nossos representantes enriqueçam com o dinheiro do povo (meu,
seu, nosso). Aliás, Bolsonaro só faz defender o patrão, o grande pecuarista, o
latifundiário. A constatação inevitável é de que o povão votou em alguém que o
despreza. Como já disseram, “The Walking Dead” é aqui.
Luciana Guerra Malta - 02/01/2019
Ótima análise Luciana. Não acreditam em fatos, em história, nem querem o melhor pra o Brasil. So alimentam e vomitam discursos de odio e sem nenhum compromisso com a realidade. Mas tudo muito previsível desde as jornadas de junho de 2013. A mídia alimentou o monstro que nasceu da sua propria manipulação. Agora o monstro engole essa mesma midia. Não tenho pena. Apenas observo. Sei que esse desgoverno será implodido por dentro. Cria cuervos que te sacaram Los ojos.
ResponderExcluirConcordo. Também acho que será implodido por dentro. O povo vai se decepcionar quando sentir no bolso e perceber que a corrupção é a mesma de antes, ou talvez maior, já que pretendem vilipendiar o patrimônio do Brasil e quanto se leva nisso, não é mesmo?
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