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A nova era da truculência


Primeiro momento
Duas mulheres passeiam no Aterro do Flamengo. De repente, deparam-se com a seguinte cena: dois homens com cerca de 35 anos riem ao pé de uma árvore. Um deles segura dois cachorros de porte médio. Um dos cachorros late e rosna para um gatinho que está amedrontado no alto da árvore. As duas se chocam com a situação e uma delas resolve ficar debaixo da árvore, entre os cachorros e o gato, bem de frente para os homens. Ela decide tentar um diálogo:

– Com licença, mas você deve ter visto esse gatinho aqui em cima da árvore.

O cachorro rosna mais. O homem segurando a coleira diz:

- É a lei da natureza, cão e gato.

- Mas ele tá morrendo de medo porque seu cachorro não para de latir.

- Eu tenho culpa se abandonam os gatos aqui? A culpa é minha?

- Não, mas você não precisa deixar seu cachorro atacar os gatos.

- Meu cachorro tá atacando algum gato?

- Não, mas tá latindo enlouquecido, louco pra atacar. O gato pode cair da árvore.  Será que você não podia ficar um pouco mais pra lá?

- Eu tô passeando com o meu cachorro.

- Você tá parado embaixo da árvore.

- Tá tão preocupada assim com o gato? Por que não leva ele pra casa?

- Porque não posso.

- Então, me deixa em paz. Eu abandonei algum gato, por acaso? Eu sou culpado?

- Não tô dizendo que você é culpado. Só tô com medo do seu cachorro matar o gato.

Há uma breve pausa. Ele sorri de repente.

- Aposto que você votou no PT.

O outro homem, ao seu lado, dá uma risada. Ela contra-ataca.

- Alguém como você só pode ter votado no Bolsonaro. Um troglodita...

- Agora você tá me ofendendo...

A conversa não evoluiu, o homem ao lado dele disse que havia outro gatinho mais adiante e lá foram os dois se divertir vendo os cachorros fazerem o outro gato subir na árvore.  Bem, com a sorte não se brinca e a mulher que travou o diálogo com o troglodita achou que ele acabaria soltando os cachorros nela se insistisse. As duas conjecturaram que talvez fosse o esporte favorito deles ver os cachorros perseguirem e estraçalharem gatos. Foram embora falando que o brasileiro se brutalizou mesmo e que aquela história de carioca simpático tinha virado um mito.


Segundo momento 
Almoço de família, primeiro dia do ano. Após a sobremesa, a família se reúne em frente à TV e assiste à posse de Bolsonaro.  A caçula da família lê em voz alta a manchete de uma notícia no celular: “Das 123 fake news encontradas por agências de checagem, 104 beneficiaram Bolsonaro”. Seu irmão pergunta onde ela leu aquilo. “No Congresso em Foco”, responde. Ele se irrita.
- Você acredita? – pergunta ele.

- Acredito – responde ela. – Tá dizendo aqui que isso foi nos primeiros 70 dias da campanha eleitoral, e a gente via mesmo aquele bando de notícia falsa...

- Agora você vai dizer que o PT perdeu por causa das notícias falsas.

- Não sei, mas que a campanha do vencedor foi baseada em mentiras, isso foi. Teve aquela da mamadeira erótica, aquela história de que o Haddad incentivou o incesto... teve aquela do kit gay, em que até você acredita.

- Eu vi o vídeo.

- Mas foi provado que era mentira, que o MEC nunca distribuiu kit gay nenhum, o próprio STJ mandou tirarem as propagandas mencionando isso... você não viu no Globo? Saiu que era fake.

- E eu quero saber o que o Globo pensa?

- Não é o que ele “pensa”, são fatos.

- Chega. Vamos parar com isso, senão eu vou ser obrigado a me retirar.

Para não estragar a reunião familiar, ela se cala, mas sua mente fervilha: Será que os bolsonaristas são tão agressivos quando você traz à tona fatos que desabonam seu “mito” porque sabem que ele é um santo com pés de barro? Será que no fundo eles sabem que ele é um produto de marketing, que seu discurso é vazio? Ou então, tal qual seu ídolo, eles não aguentam discussão porque não têm argumentos?

Na verdade, é interessante que tanto o ídolo quanto seus seguidores fujam de debates. Bolsonaro já fugiu dos debates na campanha e hoje foge abertamente da imprensa, evitando as coletivas e dando entrevistas apenas a emissoras amigas, que não lhe fazem perguntas constrangedoras. É fácil perceber que, tal qual Bolsonaro, seus seguidores não são mesmo chegados à democracia. Por isso, claro, votaram nele. Devem pensar que, afinal, há um dos seus no poder. Os que não fogem a debates é que sofrem, já que acreditam que o diálogo é fundamental para o crescimento.

O jeito é esperar. Vamos ver por quanto tempo os truculentos vão conseguir calar as vozes dos que gostam de falar - e de ouvir, uma coisa complementa a outra. A lei da mordaça não deve resistir muito, as trocas econômicas dependem da livre circulação de ideias. A economia se expande na democracia, isso é um fato. Há um Brasil louco para se alinhar com os Estados Unidos e ganhar espaço como produtor de matérias-primas. Há outro Brasil com tecnologia de ponta que precisa de cérebros. Esse Brasil, globalizado, não se contenta em ser quintal dos EUA. Vamos torcer para que o Brasil mais avançado pressione o Brasil primário. Enfim, para a prosperidade de uma nação, a abertura das mentes é tão importante quanto a abertura dos portos.

Luciana Guerra Malta - 7/01/2019

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