Tenho 46 anos. As pessoas me dão menos, dizem que sou “bem conservada”, mas não adianta: tecnicamente, sou uma coroa.
Sempre fui “revoltada”. Lembro que fiquei inconsolável em 1984, aos 14 anos,
quando minha mãe me proibiu de ir ao comício das Diretas Já na Candelária.
Depois disso, lembro de ter tentado me infiltrar numa manifestação dos caras
pintadas em 1992, contra o Collor, mas me senti muito “coroa” para estar ali. E
olha que eu tinha só 23 anos. Acontece que, quando tinha metade da minha idade
atual, talvez estivesse muito preocupada com a opinião dos outros, não queria “pagar
mico”. Aos 46 anos, bem, depois de ter pago tantos micos que daria para povoar
um santuário de vida selvagem na África, eu simplesmente parei de me preocupar
com o que os outros estão pensando. OK, estou quase chegando no presente. Veio
2013 e a desgraça absoluta que foi Marco Feliciano na Comissão de Direitos
Humanos. Ali a adolescente rebelde renasceu. Na verdade, ela tinha renascido já
em 2012, quando a série de problemas que encontrei no bairro onde fui morar, a
Lapa, fez com que eu me unisse a outros moradores para reivindicar melhorias e
o mínimo de respeito por parte do poder público (coisa muito difícil nesse
país!). Depois da campanha contra Feliciano, em 2013, vieram as manifestações
por causa do aumento das passagens e depois por causa dos professores. Fui em
algumas. Em 2014 fui a uma única
passeata: a que protestou contra a morte de Cláudia, a mulher que levou um tiro
de um policial e depois teve o corpo arrastado pelas ruas. Em 2015 eu me
tornei uma autêntica “ativista de sofá”. Só protestava no Facebook, assinava
petições virtuais... até que a prefeitura começou o processo chamado
ironicamente de “racionalização”, ou seja, as mudanças nas linhas de ônibus que
resultaram na extinção de 70 linhas e na alteração de 41. Em contrapartida, criaram
16 linhas: as chamadas troncais, que fundem várias linhas e dão a volta ao
mundo, e as circulares, que passam rarissimamente. Enfim, essas mudanças foram
um autêntico desastre. A não ser, claro, para as empresas de ônibus, que
maximizaram seus lucros.
Primeiro,
veio o motorista trocador. A quantidade de gente que foi mandada embora é um
mistério. Depois, a extinção e o encurtamento de diversas linhas, obrigando o
usuário a tomar dois ônibus em vez de um. Mesmo que ele tenha bilhete único
(BU), a passagem não sai de graça para o carioca. O BU é subsidiado pela
prefeitura, então cada passagem debitada no cartão sai da conta da prefeitura e
vai para a conta da empresa de ônibus. É dinheiro público, dinheiro de nossos
impostos, que poderia ir para: saúde, saneamento, educação, urbanização, guarda
municipal e, mesmo, transportes. Mas não, graças à “racionalização”, ele agora
vai para as empresas de ônibus. Sem contar a retirada de circulação de 35% da
frota. Isso obviamente resulta em mais gente por metro quadrado nos ônibus.
Viagens relativamente confortáveis (éramos felizes e não sabíamos) agora são um
suplício: vivemos como sardinhas em lata. Além dos ônibus lotados, andamos às
vezes por locais perigosos para pegar outro ônibus, esperamos mais tempo nos
pontos... quando contei para um americano o que tinham feito ele ficou absolutamente
pasmado. Imagina se na terra deles iam fazer isso sem consultar a população. E
imagina se o povo não ia se levantar em massa! No entanto, cá estamos, e para
cá voltaremos, para falar da que vos escreve, a tal coroa manifestante.
O
fato é que todas essas mudanças me revoltaram demais. Como precisava fazer
alguma coisa a respeito, fui a uma passeata contra o aumento da passagem. Não
curti. Eles falaram contra a Dilma, contra o Cunha, o capital internacional e
por fim, reivindicaram tarifa zero. Ora, tudo que eu queria era reivindicar
minhas linhas de volta - não que eu ache que está tudo bem, mas a idade me faz
entender que “uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa.
Sim,
sou coroa e, como a maioria de minha faixa, tenho a tendência à moderação. É
comum alguém com mais de 40 se situar politicamente no que se chama “centro”.
Na verdade, antes era uma posição louvável, mas nas últimas eleições PT e PSDB
tiveram todo interesse na polarização. O povo, pouco acostumado historicamente
com a democracia, acreditou no que se pregava: que ou você era uma coisa ou
outra, sem meio termo. Desde então, a moda é desqualificar as pessoas de
centro: os de esquerda nos chamam de direita; os de direita nos chamam de
esquerda. Quando ser de centro significa apenas questionar tudo e todos e não se
alinhar automaticamente. Por isso,
especialmente, não curti a passeata que reivindicava tarifa zero. Se tem uma
coisa que a idade ensina é que nada público sai de graça, mas sim, é pago com
impostos, ou seja, é pago por todos. Tarifa zero, portanto, não sairia de graça
– assim como o bilhete único também não sai. Então, que tal reivindicarmos o
que importa? Aliás, que mania é essa de ficar reivindicando sempre benefícios,
em vez de lutar por melhores salários? Mas atenção, como eu disse, sou de
centro. Então, sou a favor de programas como o Bolsa Família e o Minha Casa,
Minha Vida. É bom entender: trabalhar com a polarização é vantajoso apenas para
certos políticos, que assim garantem o monopólio da cena. Já o país acaba
perdendo em pluralidade e em novas ideias; a arena política fica
inevitavelmente mais pobre. É assim que, há mais de 20 anos, vemos a disputa de
poder para o cargo máximo da nação se concentrar entre PT e PSDB. Diante do
quadro geral de radicalização, as pessoas de centro acabaram “enfiando a viola
dentro do saco”. Só que, até por não concordarmos com tudo que a esquerda ou
direita diz, por ponderarmos tudo, é que sempre vemos motivos para nos
revoltar. O problema é que não estamos nos centros acadêmicos, nos sindicatos,
nos partidos mais radicais, por isso nosso grito fica entalado na garganta.
Além do mais, não gostamos de quebra-quebra, nem temos a expectativa de mudar o
mundo. Fica difícil encontrar a nossa turma entre os que frequentam
manifestações.
Mas
está na hora de sairmos da toca. Lutando por melhorias na educação, saúde
decente, atenção para a cultura, ou no caso do Rio, agora, lutando pela
reversão das mudanças nas linhas de ônibus. Não é porque somos de centro que
vamos ficar sofrendo calados. Azar dos radicais se não nos querem. Vamos botar
o nosso bloco na rua. A última manifestação legal de que participei foi a das mulheres,
contra o PL 5609, de Cunha. Ao fim, eu me senti como na adolescência, depois do
show de um ídolo de rock. Protestar faz bem, é rejuvenescedor e não custa nada.
É melhor sonífero do que Rivotril (não há melhor travesseiro que a consciência
tranquila, dizem). Por essas e outras, coroas
do Brasil, vão às ruas! A rua não é só daqueles com menos de 25 anos.
Ah,
não esqueça de usar uma hashtag em suas postagens. Se não sabe o que é ou para
que serve, olhe no Google. Se você não encontrar nenhuma que lhe agrade, crie a
sua. Eu já tenho a minha: #QueroMeuOnibusDeVolta :)
Luciana Guerra Malta –
17/01/2016

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