Tudo começou como uma onda. Primeiro, veio o projeto de lei de Eduardo Cunha (PL 5069) dificultando o acesso da mulher a atendimento médico em casos de estupro. Depois, veio o caso de desejos pedófilos que vieram à tona tendo como alvo Valentina, uma participante de um programa de TV culinário de 12 anos. O caso gerou tanta revolta que fez uma ONG feminista criar a campanha #PrimeiroAssedio, com o objetivo de incitar suas seguidoras a relatarem o primeiro caso de assédio sexual de suas vidas. Foi uma catarse, mais de 80 mil depoimentos. Logo em seguida, surgiu a notícia de que o pré-candidato à prefeitura do Rio Pedro Paulo, menino de ouro do atual prefeito, tinha agredido sua mulher violenta e covardemente pelo menos duas vezes.
Na ocasião em que escrevo essa crônica, Pedro Paulo ainda é candidato. Eu e minhas amigas e tantas outras feministas que conheço torcem para que ele deixe de sê-lo em breve, mas é impossível prever o que pode acontecer, diante da insistência do prefeito do Rio em manter a candidatura, alegando que as agressões são questões da vida privada e que já estão superadas. Bem, eu disse “eu e minhas amigas feministas” e é esse dado, na verdade, que eu gostaria de ressaltar. Sempre simpatizei com o feminismo e me declarava “feminista, claro”, quando alguém me perguntava, mas nunca tinha me sentido feminista de verdade. Nunca tinha ido para a rua clamar por direitos das mulheres, até alguns dias atrás. Acho que nunca tinha me visto como mais uma, nunca tinha me dado conta do quanto as histórias de nós, mulheres, são parecidas. Marcadas por maior ou menor violência, mas sempre por machismo. Aqui e ali todas somos instadas a deixar de fazer alguma coisa por sermos mulheres. Aqui e ali nos sentimos obrigadas a nos submeter à vontade de um homem. Aqui e ali achamos natural baixar a cabeça e, quando a gente para e analisa os fatos, vê que tudo começa bem cedo. Como disse uma crônica que li, a mulher não amadurece mais rápido que o homem naturalmente, mas desde muito cedo lhe dão mais responsabilidades, a mãe lhe confia intimidades e fala abertamente coisas que não fala para o menino. Em outras palavras, a menina, desde pequena, é uma mini mulher. Já o menino é apenas um menino e ponto.
Parece que desde os primórdios foi assim. Eva foi a primeira a comer a maçã da árvore do conhecimento e pagou um preço alto por isso. Ainda passou para a história como vilã porque teve a grandeza de dividir a tal maçã com o homem, provocando a expulsão do paraíso. O saber, como se vê, custa caro desde a fundação da humanidade.
Talvez por causa desse pecado original, ligado à “ciência do bem e do mal”, tenha se propagado a ideia de que as mulheres deviam guardar seu conhecimento – no caso, a respeito de assuntos “pecaminosos” – para si. E guardar o que sabiam significou também guardar o que sofriam. E guardar o que sofriam significou, no fim das contas, aprenderem a sofrer caladas.
Para perpetuar esse hábito de cultivar o silêncio sobre o que diz respeito ao sexo, para reforçá-lo, é que provavelmente surgiu o PL 5069. Assim como, contando com esse hábito da mulher de calar-se, é que o prefeito do Rio defendeu o seu candidato. Afinal, o argumento de Eduardo Paes foi justamente que as agressões haviam ocorrido “entre quatro paredes” e eram uma “questão da vida privada”. Existe, portanto, institucionalizada, toda uma engrenagem social que empurra as mulheres para esse lugar de estoicismo. A mulher ideal, como se pode ver, continua sendo a “Amélia”, aquela que sofre sem reclamar. Nessa sociedade, em que a mulher se cala, o homem se sente livre para dar vazão a todo sorte de desejo sexual. Sempre foi assim, até vir o caso de Valentina e a campanha #PrimeiroAssedio. Então, as mulheres descobriram que todas nós fomos vítimas de assédio desde muito cedo e que estamos todas no mesmo barco.
Eu pensei no meu primeiro assédio. Eu tinha oito anos e um parente botou a minha mão sobre o seu pênis. Ele estava vestido, mas quis que eu “sentisse”. Disse que aquilo era um “pau” ou qualquer outra palavra chula. Eu tirei a mão e ele me deu os parabéns, disse que eu era muito “amadurecida”. Esse foi apenas o primeiro assédio. Dentre tantos que se seguiram, anos depois fui assediada por outro parente. Eu tinha pouco mais de 20 anos e ele passou a mão nos meus peitos. Eu mandei ele tirar a mão com uma voz gutural que tinha qualquer coisa de infernal. Sim, era uma voz que vinha lá do meu íntimo. Parecia um demônio dentro de mim. Ou talvez, um anjo. Um anjo que mais uma vez me fez levantar a cabeça, sinalizando: Comigo não, me respeite. Era isso, afinal, o que eu queria dizer, mas que não sabia formular em palavras. Era o que meu coração gritava, o que minhas entranhas gritaram silenciosamente todas as vezes que fui assediada. No caso específico dos parentes, que é mais grave porque não há nada pior do que ter sua confiança traída por quem se ama, a pergunta quando somos crianças é a seguinte: O que está acontecendo? Já quando se é adulta, o que vem à cabeça é um misto de protesto e perplexidade: Não acredito, não acredito que isso está acontecendo.
O assédio pode minar a confiança da mulher irremediavelmente. Há muitas deformações e cicatrizes decorrentes desse tipo de acontecimento, mas tudo costuma ficar escondido. Costumava, até vir essa grande catarse coletiva e, com ela, a sensação de irmandade. Nós, mulheres, afinal nos demos conta de que vivemos sob os mesmos grilhões e que a luta de uma é a luta de todas. Não à toa, o slogan do movimento é “Mexeu com uma, mexeu com todas”. Viramos, enfim, um país de mosqueteiras. Façamos, pois, a nossa revolução. Agora, sem dor, mas com muito amor.
Luciana Guerra Malta - 29/11/2015
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