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Nise: o coração da loucura


Voltando do filme "Nise: o coração da loucura". O que posso dizer? O roteiro é maravilhoso, não há "barriga", nada sobra, não se carrega no drama. Tudo que se quer é contar, com o máximo de honestidade, uma bela história. E é isso que Nise diz em determinado momento, sobre um dos internos: Tudo que ele quer é nos contar sua história. A resposta dele vem tempos depois: A janela vira paisagem... um dia ela abre, mas dá trabalho.
A grandeza da figura de Nise é impressionante. Tudo que aquelas pessoas à margem da sociedade precisavam era de alguém que quisesse ouvi-las, que se interessasse por suas histórias ou melhor, por suas vidas, porque a história de cada um é a sua própria vida e vice-versa. Elas precisavam de alguém com aquela que talvez seja mesmo a maior das qualidades humanas, a compaixão, isto é; a capacidade de entender o outro, de se ver no outro. Para tanto, é preciso se despir de preconceito, e só se despe de preconceitos quem não tem medo do outro. Impressionante a coragem de Nise, sua humanidade. E eu fiquei emocionada até porque ela era alagoana como meu avô contador de histórias, de quem eu talvez tenha herdado o gosto pela coisa. E me identifiquei com Nise também porque tenho essa vontade de lutar, à medida que eu possa, contra as injustiças que me cercam. Não sou grandiosa como Nise, claro, mas tomo para mim suas palavras: Há dez mil maneiras de pertencer à vida e de lutar por sua época.
Sobre a loucura: a fronteira entre sanidade e loucura é muito tênue. Há pessoas que passam por dramas em que a única saída é a loucura, a alienação. Outras, desconectam-se de repente sem causa aparente. Ilustrando bem isso, tem a cena em que a interna se olha no espelho e passa o batom. Quando ela se vê, ou seja, quando se reconecta consigo mesma, ela começa a se a reconectar com o mundo.
Nesse filme de delicadeza e força impressionante, Glória Pires dá um show. Ela e o diretor (que mão perfeita, senhor Roberto Berliner!). Mas falando dela... só uma pessoa com muita compaixão, muita capacidade de se colocar no lugar do outro seria capaz de emprestar tanta verdade à Nise. Glória é uma grande atriz e é grande porque não se considera grande, mas porque se coloca a serviço da arte e a serviço do público. É daqueles casos raros de atores hoje em dia que se consideram "operários da arte".
Chorei no fim do filme, não de tristeza, mas de emoção. Recomendo. Aliás, digo que o filme é imperdível. Ou melhor, obrigatório.

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