Antes o tempo era marcado pelo
relógio e correspondia a uma batida ritmada, a cadência dos segundos, que era
como a batida do coração. Com o advento da era digital, o tic-tac deixou de
existir e um segundo passou a ser bastante coisa. Essa unidade de tempo, que era só uma etapa irrisória da unidade chamada
"minuto", virou uma medida substancial. Depois do Tik Tok, que jogou
a pá de cal no velho tic-tac, recomenda-se que vídeos não passem de 15 segundos,
porque ninguém aguenta vídeos “tão longos”. Os textos também devem ser curtos.
O conteúdo encolhe e o cérebro também, claro. Li que já estamos menos
inteligentes, pois o uso excessivo das redes diminui nosso foco atencional e
prejudica o processo de memorização.
Comecei a pensar nessas
questões porque, revirando minhas gavetas, achei um relógio de pulso antigo.
Ele parecia perfeito, o problema devia ser só a bateria... e era. Levei o
relógio para o conserto e o moço colocou uma bateria nova por 20 reais, com garantia
de um ano. Saí da loja feliz com meu relógio obsoleto: nada de tela, nada de
informações, internet, bluetooth. Tudo começou porque um motoqueiro fantasiado
de entregador puxou o celular da minha mão na rua. Ter o celular roubado hoje
em dia é ainda mais chato do que ter todos os documentos roubados. Resolvi
ressuscitar o relógio para não ter mais que tirar o celular da bolsa para ver
as horas. De quebra, eu andaria com um objeto que não despertaria o desejo de
ninguém e seria para meu uso pessoal estrito. Nada mais estranho hoje do que
algo para uso pessoal estrito, não? Algo que não se compartilha nas redes como
uma conquista, uma vitória, algo que ninguém quer - nem o ladrão mais chinfrim.
Se ainda fosse um super tênis que chamasse a atenção em uma academia, mas um
relógio de pulso com ponteiros! É coisa que nem para a reciclagem serve.
Eis que aconteceu um fenômeno:
o uso do relógio de pulso mudou algo em mim. Fiquei mais paciente, menos
hiperativa. Subitamente me vi com preguiça de ler e-books. Como a leitura é uma
necessidade vital para mim, voltei a ler livros impressos.
Bom ler sem clicar em nada que
nos leve a outro lugar. Bom ler sem ver notificações. Bom ler, simplesmente.
Tão bom quanto fazer sexo em motel na época em que nada, absolutamente nada
desviava nossa atenção de quem estava ali ao nosso lado. Era uma experiência
transcendental, intensa. Claro que quando era ruim, era ruim ao cubo. A
intensidade cobra seu preço.
Como não dá para viver sem celular e internet, há que se lembrar do Senhor Buda e buscar o caminho do meio. Menos é mais. Usemos redes sociais e gadgets com moderação, conscientes de que o cérebro adora o descanso de contemplar coisas sólidas, sem brilho, como folhas de papel, e que o nosso corpo adora se enredar em outro corpo como se no mundo não houvesse mais nada nem ninguém. Para ser mais clara, falo de uma boa F*** sem pausa para likes.
Depois que reativei meu
relógio de pulso, li dois livros maravilhosos: a autobiografia de Fernanda
Montenegro, "Prólogo, ato, epílogo" e "Torto arado". Foram
livros que me tocaram fundo. Fernandona, atravessando o tempo com sua dignidade
inquebrantável, cheia de amor à arte e à vida... "Torto arado"
falando de ancestralidade, dos negros que viveram gerações dando o sangue e o
suor por uma terra da qual estavam fadados a ser expulsos. Ou melhor, fadados
não, porque o tempo às vezes para. Ele para de modo que a gente possa se
rearrumar e seguir o caminho que escolhemos, foi a mensagem do livro que calou
fundo em mim. E eu complemento com minha reflexão pessoal: o tempo dos
segundos, das batidas do coração, é o tempo capaz de transformar o destino em
uma história digna de ser contada.
Fiquei tão feliz com meu
relógio que tenho andado sem ele. O tempo não está fora de mim, mas dentro. É
meu tempo que importa. Nele cabem pessoas, filmes, séries, músicas e livros
incríveis. Cabem dores também. Tudo junto e misturado. Somos esse amálgama de
paixões, alegrias, tristezas, forças e fraquezas complexos demais para caber em
15 segundos. Ainda bem.
Luciana Guerra Malta
30.11.2023

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