Tem um filme antigo, em preto e branco, chamado “A Malvada”, que é simplesmente magnífico. É com uma atriz chamada Bette Davis, que foi uma das maiores que o cinema já teve. Posso dizer que ela tinha o olhar da Fernanda Montenegro, o glamour da Cate Blanchett, a capacidade da Merryl Streep de transmitir a emoção mais complexa em um segundo, e mais alguma coisa só dela que nunca existiu ou existirá igual. Nesse filme ela fazia uma grande atriz que de repente abria as portas para uma aprendiz de atriz. Todo mundo achava que a malvada era a diva, mas na verdade era a novata, que fez todo tipo de intriga até roubar o lugar da atriz famosa.
Esse filme fez tanto sucesso que inspirou diversos outros filmes e até uma boa novela da Globo, “Celebridade”, de Gilberto Braga. Esse tipo de história fez e faz tanto sucesso porque todo mundo conhece gente assim. Em todo escritório, empresa ou família, tem um grande manipulador ou manipuladora, que vive a se fazer de vítima. Seu combustível é a inveja e ele ou ela não poupa esforços para apagar o brilho alheio. Enfim, ele não suporta a luz, é um agente das trevas, um sanguessuga, vampiro de almas.
O pior é que ele sempre leva alguém no papo. Ele conta suas desgraças e faz quem ouve pensar “até que não estou tão mal, posso ajudar”. Pronto, é o primeiro passo para a pessoa se tornar escrava. Mas escutem o que eu digo: esse tipo de gente não dá nada, quando dá é com grande alarde, para que lhe digam “você é bom, ou você é boa”. Nada que fazem é de graça, tudo tem um cálculo, e a conta é sempre desfavorável para o outro lado.
Confesso que fiquei em paz depois que concluí que tem gente má e pronto, e nada que eu possa fazer vai provocar uma redenção. Não dá para ter coração nem peito aberto para qualquer um. Tem gente que só conjuga o verbo na primeira pessoa, não adianta. E sabem, talvez isso nem seja ruim no fim das contas, talvez seja necessário para o equilíbrio do cosmos. Talvez o mundo precise de todas as forças em ação, até para nos dar a chance de escolher um lado. Alguém pode dizer “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”, mas às vezes a única saída razoável é pular do barco. O mar pode ser perigoso, mas tem a grande vantagem de ser infinito.
Luciana Guerra Malta
15/01/2024
* Foto: AdoroCinema
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