“Ainda estou aqui” inicia com uma reconstituição perfeita dos anos 70. Quem viveu esse período se sente à vontade, como se estivesse dentro da ação. Íntimos e cúmplices, acompanhamos a família feliz, o casal maduro ainda apaixonado cheio de filhos e amigos. Pessoas que não perdiam uma oportunidade de confraternizar numa época em que as pessoas se visitavam e famílias inteiras saíam à noite para tomar sorvete. Um tempo em que a inexistência do celular obrigava todos a interagir, não dava para cada um ficar isolado no seu mundo. Naqueles tempos, valia de fato o lema “um por todos, todos por um”. Por outro lado, havia a grande ameaça no ar... Tem aquela expressão “amor que não ousa dizer seu nome”. No caso, era um ódio bem traduzido em um dos mais famosos slogans produzidos pelo regime militar na época: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Enfim, havia coisas “perigosas de se dizer”, por isso tantos silêncios e sussurros. No entanto, eram tempos felizes para boa parte da população, em que pairava a esperança de que a normalidade voltasse, a democracia vencesse, a justiça imperasse. Infelizmente, tudo condicionado a um subjuntivo que jamais se tornaria indicativo.
Só a beleza daquele quadro, para mim tão evocativo de sons e cheiros, a poesia daquela felicidade feita de uma inocência para sempre perdida, já fazia meus olhos marejarem, mas começo a chorar mesmo com cerca de meia hora de filme, quando a mãe, Eunice, interpretada por Fernanda Torres, sai com os filhos para a sorveteria. Ali, ela já sabe que perdeu seu marido. Da família, aliás, só ela sabe. Eunice tem cinco filhos para criar, um Estado algoz que já a prendeu, prendeu sua filha, matou seu marido e vigia sua família o tempo todo. A Eunice não é permitido demonstrar fraqueza e ela mantém a altivez com uma garra comovente, mas durante alguns instantes, ela se desmonta. Quando a personagem “perde o personagem”, Fernanda revela a atriz plena que é. A gente vê apenas uma mãe como qualquer outra transcendendo suas forças para aparentar que está tudo bem quando está tudo péssimo, quando o pior, o inimaginável, aconteceu. Naquele momento, a gente entende a extensão da dor daquela mulher, Eunice Paiva, e entende a dor de todos, afinal, que vivem o luto causado pela barbárie institucionalizada – seja das forças armadas naqueles tempos de ditadura, seja da polícia que hoje mata maridos, esposas, filhos e filhas nas periferias.
O filme de Walter Salles prossegue mostrando a
força de Eunice para se reinventar, a resiliência dos filhos, a luta para que a
verdade sobre o desaparecimento de Rubens Paiva viesse à tona. Os desempenhos -
tanto dos atores mais jovens quanto dos veteranos - é perfeito, mas é Fernanda
Montenegro que no fim me faz chorar como uma criança. Ela tem uns cinco minutos
de tela, mas o mínimo de tempo para Aquela Atriz é uma eternidade. Acho que vou
me lembrar para sempre do seu olhar, da sua expressão no final.
Saí do filme muito emocionada,
mas com uma raiva profunda dos militares e civis que trabalharam para instaurar
e manter a ditadura. A raiva de quem pede a volta dos militares ao poder hoje,
depois de tudo, é maior ainda. Saí indignada com essa gente que é tão desumana
que nem merece ser chamada de “gente”.
Jovens, vejam esse filme e entendam o que se passou no Brasil. Coroas, vejam esse filme e relembrem o que vivemos, ainda que fôssemos muito pequenos para entender o que se passava, tanto mais quando havia uma censura férrea e uma central de mentiras precursora do gabinete do ódio que já naquela época criava um verdadeiro Brasil paralelo. Pessoas de todas as idades, vejam esse filme não só porque ele é imperdível, necessário, tecnicamente perfeito, mas também porque é bonito, poético e muito, muito emocionante. O coração da gente precisa ser mexido, de vez em quando, para bater no ritmo certo. E o ritmo certo, esse filme faz a gente sentir lá no fundo, é a batida da democracia, da liberdade, do respeito. Esse filme também nos faz lembrar que já fomos muito felizes e que precisamos olhar para a frente e sorrir, como Eunice nos ensinou. Só que, antes, precisamos dissipar toda e qualquer ameaça de que o terror volte a se instaurar. Ditadura nunca mais, anistia nem pensar, democracia sempre.
Afinal, que bom que ainda estamos aqui. Para
compreender a história, nos reinventar e construir um novo tempo, livre do
fantasma do autoritarismo.
Luciana Guerra Malta
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