Hoje em dia encontram-se cursos de todo tipo. Aliás, o
nome “curso” caiu em desuso. Primeiro, passou a ser workshop, depois oficina.
Agora, é “vivência”. As vivências duram algumas horas, são experiências que
costumam deixar um rastro vago na memória. Quem ministra o curso, ou melhor,
coordena a vivência, é chamado de facilitador. Essa pessoa precisa ser
articulada, simpática e dar a expressão de absoluta espontaneidade, como se não
houvesse um roteiro traçado.
Você
chega numa sala para experimentar uma vivência dessas e encontra sempre um
monte de gente que nunca viu e nunca mais vai ver. Uma das características da
vivência é a troca intensa com gente desconhecida. É bom porque fica mais fácil
se expor para gente que, por não fazer parte da sua história, é incapaz de
julgá-lo.
Eis
que estou no meio dessa vivência. Vamos todos imaginar uma cidade e cada um vai
montar um personagem, a partir de uma pessoa real. Ao contrário da maioria
(porque sou ovelha negra mesmo), escolhi falar de uma pessoa que mal conheço. O
que me impressionou foi sua história. Há mais de trinta anos, ela perdeu um dos
filhos de maneira absolutamente estúpida: ele tinha quinze anos, estava no ponto
de ônibus, com o uniforme da escola e, de repente, passou um homem atirando de
um carro. O garoto morreu.
Mas havia uma senhora perto de mim e ela disse:
- Com licença, mas acho sua
interpretação muito romântica. Acho que ela largou a profissão porque de
repente viu a inutilidade de tentar salvar vidas diante da imponderabilidade do
todo. Acho que ela se deu conta da
inutilidade do seu trabalho em face dessa imponderabilidade, sobretudo quando a
violência que vem do outro lado é sempre muito maior. E contra essa violência,
somos todos impotentes.
Houve uma breve pausa e alguém disse que preferia a minha interpretação, a romântica.
No fim, a senhora Angel veio falar comigo e pediu
desculpas pela intervenção, mas eu agradeci dizendo que suas palavras, para
mim, não haviam anulado o romantismo do meu olhar, mas o haviam enriquecido. E
eu a abracei e fiquei com sua fala na cabeça, agradecida porque alguém que sabe
muito mais do que eu resolveu me contradizer.
Luciana
Guerra Malta – 16/08/2015
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