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Lenny Eversong - A dor por trás do sorriso


Adoro descobrir novas sonoridades. Há anos pesquiso novos sons e vozes, antes mesmo do advento da Internet. Às vezes estaciono no que já conheço, mas daqui a pouco ressurge a velha inquietação, bem conhecida dos algoritmos (nessas horas, eles são muito bem-vindos). Foi assim que surgiu, de repente, na minha linha do tempo, um artigo sobre a cantora Leny Eversong. Nunca tinha ouvido falar nela... e olha que é difícil uma cantora de voz potente passar despercebida por mim. Venero várias, estrangeiras e brasileiras. Faltava no meu panteão essa senhora “Eversong”.

Na chamada estava escrito que ela tinha feito um dueto com Elvis Presley. Curiosa, busquei uma coletânea da cantora no YouTube. A primeira música era "Jezebel". Fiquei impressionada com sua voz. Era tipo "força da natureza", aquela massa sonora que deixa a gente sem palavras e sem ação. A gente senta e escuta, humilde face àquela explosão de talento e beleza.


Resolvi ler mais sobre Leny, na verdade Hilda Campos. Ela nasceu em Santos, em 1920. Teve uma vida bastante sofrida a partir do desaparecimento do marido, em 1973. Antes, fez muito sucesso, sobretudo nos Estados Unidos, e brilhou também na Europa. Ela cantou simplesmente com as principais big bands do planeta.

Sua vida, porém, nunca foi fácil. Leny teve um desequilíbrio hormonal aos 21 anos, depois de ter seu único filho, e nove entre dez críticas ou reportagens a seu respeito falavam de sua obesidade - ela passou a pesar cerca de 110 quilos. Vale lembrar que, além da gordofobia, ela foi estigmatizada por cantar tanto em outros idiomas. No entanto, nem todo preconceito de que foi alvo machucou-a mais do que a perda de seu marido, Ney Campos. Ele desapareceu na noite de 4 de agosto de 1973, aos 52 anos, quando viajava de carro de São Paulo para o Guarujá. O corpo de Ney nunca foi oficialmente encontrado e sua morte foi oficializada somente em 1987, embora haja evidências de que a polícia o identificou a partir de uma arcada dentária de um corpo em decomposição encontrado na praia de Bertioga, no litoral paulista.

Tudo indica que Ney Campos tenha sido assassinado por agentes do Dops após ter sido confundido com um sindicalista. Além do inferno que foi ver sumir seu companheiro, Leny ainda teve que lidar com o estrangulamento financeiro: ela não podia mais mexer na conta bancária que tinha com o marido, nem vender patrimônio. Todos os seus bens estavam bloqueados, pois de acordo com as leis brasileiras, só se expede o óbito depois de 20 anos de desparecimento.

O caminho da depressão foi inevitável. Sua última apresentação foi em um programa na Tupi, em 1978. Abandonada, esquecida e sem dinheiro, Leny morreu em decorrência de complicações de diabetes, em 1984.

Respirei fundo depois de descobrir essa história. Não apenas pela tragédia que se abateu sobre a Leny, mas por pensar que tantos certamente desapareceram naqueles anos de chumbo e a gente nunca vai saber. Quantos teriam sido confundidos com militantes de esquerda durante a ditadura militar, para depois serem transformados em restos impossíveis de se identificar?

De qualquer forma, o que no final realmente fica para mim é o rosto sorridente de Leny. Tem muita gente no Brasil que merece ser redescoberta. Temos um baú inesgotável de talentos que se foram, mas que deixaram registros que podemos acessar. A Internet não precisa servir apenas para nos tornar dispersivos e incapazes de enfrentar textos com mais de mil caracteres ou vídeos com mais de um minuto. Ela serve também para garimparmos talentos maravilhosos que, apesar de não serem lembrados por muitos, podem ser descobertos por poucos que, como eu, ficarão gratos para sempre.



Luciana Guerra Malta

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