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O Cristo e os cristãos

     Amarás o teu próximo como a ti mesmo.

     Ninguém, antes de Jesus, pregou de maneira tão radical o amor e a igualdade. Essa noção, de que os homens nascem livres e iguais culminaria na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1789, que em seu 10° artigo proferia:
      Ninguém pode ser molestado por suas opiniões, incluindo opiniões religiosas, desde que sua manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida pela lei.
     Eis que, a Revolução Francesa, ao fazer a cisão entre Estado e religião, acabou por garantir a liberdade religiosa. Para os que não eram religiosos, o novo estado de coisas seria maravilhoso, mas para quem era religioso, por que não seria igualmente digno de comemoração? “Dai a César o que é de César”. Ao Estado, as questões da matéria. À religião, as questões do espírito.

     É claro que não foi só o cristianismo que fundamentou a noção de igualdade do século XVIII. O mundo ficara menor, o outro das terras distantes havia sido apresentado às cortes europeias. E esse outro costumava encantar por sua pureza e bondade, que existia à revelia da crença no Deus da Bíblia. Os indígenas não precisavam da Bíblia para serem felizes (na verdade, eles eram bem mais felizes antes da chegada dos cristãos, como mostra a história).

    Mas a mensagem cristã foi mesmo revolucionária, e foi como ameaça política que o Império Romano tratou os cristãos no início dos tempos. Os seguidores de Cristo não seguiam a deusa Roma, criam num deus único, submetiam-se ao martírio com fé e orgulho. Quanto mais cristãos eram mortos, mais cristãos surgiam. A mensagem de amor de Jesus alcançava, sobretudo, os excluídos: pobres, escravos, mulheres. E vale dizer, a mensagem de Jesus era sua prática: aliviar as dores dos pobres com a cura, valorizar as coisas do espírito em primeiro lugar, sentar-se com todos que quisessem ouvir sua palavra, aceitar os que não acreditavam nele, estender a mão para os marginalizados (como Maria Madalena).

    É impressionante que, hoje, usando o nome de Jesus, alguns enriqueçam tanto. Afinal, em várias passagens dos evangelhos, Jesus critica duramente os sacerdotes por desprezarem os pobres e darem importância excessiva ao ouro. É impressionante também que, em nome de Jesus, persigam-se outros seres humanos e condenem-se outras religiões. Aliás, condenação e Jesus são duas palavras que não combinam. Primeiro, porque ele transcendeu sua condenação com a ressurreição. Segundo, porque o essencial de sua pregação foi o amor ao próximo. Mesmo quando confrontado diretamente pelo diabo, Jesus teria apenas firmado sua convicção e dito: Vai-te. Ele não gritou, não vociferou, não ameaçou mover céus e terra. Jesus era definitivamente um homem discreto. Parece que o único momento em que abandonou a postura pacífica foi no incidente com os vendilhões do templo. Diante dos mercadores da fé, Jesus perdeu a paciência. Essa passagem tem sido cada vez mais esquecida. Não me admira, há mesmo de ser conveniente esquecê-la quando se vendem pedaços do Céu.

Luciana Guerra Malta - 2/04/2015

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