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Para Hilda Hilst


Tudo é assim: escuridão e morte. Para mim é tudo assim. Não adianta você falar de crisântemos, de fonte, de menino, de rio. Para mim, o rio é um lago de areia movediça. Para mim o rio só puxa para baixo e sufoca.

Cansada de sorrir, cansada de acreditar, cansada de inocentemente colher flores, para ser sempre ferida pelos espinhos. Ultimamente me ignoram, adoram ignorar-me. Eu, que já fui aprendiz de Madre Teresa, agora alimento cuidadosamente meu ódio. Quero me vingar de quem me ignorou. Quero que se arrependam.

Mesmo que querer coisas negativas seja o mesmo que não querer, de acordo com os livros de autoajuda. Mas autoajuda só serve para quem existe para o mundo, para quem é visto. Aliás, não tenho sido ignorada, mas repudiada. É culpa do meu gênio forte. Ter opinião é uma condenação nesse mundo de gente insossa. Ter discurso é que é o máximo. Basta embalar a idiotice que for numa forma atraente, que te compram. Senão, você vai para o meio do mato, vai ser condenado a buscar fantasmas em ondas de rádio. O ser humano precisa estabelecer conexões. Se não for com o mundo de cá, vai ter que ser com o mundo de lá. O ser humano tem um limite para ouvir o silêncio, um limite para ouvir a própria voz, para perguntar e ele mesmo responder. O ser humano tem um limite.

É fácil escrever as coisas que vêm de dentro. Duro é viver com elas. 

Luciana Guerra Malta - 26/04/2015

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