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Para uma menina com uma flor



    Outro dia resgatei alguns livros meus na casa da minha mãe e me deparei com “Para uma menina com uma flor”, de Vinícius de Moraes. Ao abri-lo, dei de cara com a dedicatória:

    Para uma menina que “descobri” que é a única que pensa igual a mim. Para que ela nunca se esqueça da garota que pensa igual a ela.
                                                                 Patrícia Santiago da Silva

    Não havia data, mas imediatamente me veio à cabeça o ano de 1980. Lembrei da minha amiga da quarta série do Colégio Palas, na Tijuca. Lembrei pouco, aliás. Naquela época não tínhamos a mania de tirar fotos de hoje. Não achei nenhuma foto com ela. Lembro apenas que ela era branca, tinha os cabelos escuros e lisos. Olhos grandes e castanhos... acho que ela tinha olhos grandes. O que tínhamos em comum, afinal? Adorávamos ler e escrever e nos achávamos muito amadurecidas em relação ao resto. Como eu lembro tão pouco dela, porque saí da escola e não nos vimos mais, fiquei pensando em quais seriam, afinal, os pensamentos dessa menina – eu – que pensava igual à Patrícia? Porque eu mesma não faço ideia. Então, tive vontade de encontrá-la para perguntar se ela lembrava, ao menos, dos próprios pensamentos. Se pensávamos igual, uma vez que ela lembrasse do que ia na sua mente, estava resolvida a charada: eu ia saber o que eu pensava em 1980. Simples.
             
    Mas Patrícia, como eu, há de ter vivido tanta coisa, que certamente já esqueceu o que pensava em 1980. Às vezes tenho dificuldade de lembrar o que fiz há uma semana. O que dirá, lembrar o que pensava há 35 anos... 

    Resolvi olhar na Wikipédia os principais acontecimentos de 1980. Selecionei os que foram marcantes para mim: lançamento do filme “O Império Contra-ataca”, da saga Star Wars; realização das Olímpiadas de Moscou – na verdade, não pelos Jogos, mas pelo mascote da competição, o ursinho branco Misha, que até hoje tenho guardado; a morte de Vinícius de Moraes (nessa época, os poetas eram realmente populares no Brasil); a morte de John Lennon.
               
    Relembrar os acontecimentos marcantes ainda não fez com que eu lembrasse dos meus pensamentos. A menina que a Patrícia disse que pensava igual a ela continuava uma incógnita para mim. Mas espera, nem tanto. De repente, lembrei de Star Wars e de como eu me sentia diante do Hans Solo. Apaixonada, claro - tudo que eu queria era ser a princesa Leia. E lembrei de como eu gostava de criar histórias em quadrinhos e de como amava ler, escrever, ver filmes e escutar música. Então, concluí que a mulher que eu sou não é tão diferente da menina que eu fui. Afinal, acho que continuo a mesma: tão apaixonada por pensar, que não retenho meus pensamentos. À medida que os tenho e lhes dou forma (escrevendo), vou substituindo-os por outros. Porque meu barato é produzir novos pensamentos.
               
    Bem, Patrícia, se um dia a gente se encontrar, eu a convido para um café. Não adianta falar do passado, porque minha memória é péssima. É isso, minha amiga, eu continuo a mesma daquela época: com os olhos no futuro, cheia de projetos.

Luciana Guerra Malta – 24/05/2015









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