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O egoísmo do brasileiro


A vida não é só política. A vida urge lá fora. Amigos, família, relação amorosa... A vida não é só política, mas parece que todos vamos entendendo muito bem a importância que a política tem para as nossas vidas. Dá para dizer que a vida não se resume à política, mas que a política se resume à vida, ao que é vivo. Política, portanto, é atributo da vida. 


Política não é religião, mas a religião cada vez mais se faz política. É um jogo de poder; religiosos entram na política para favorecer suas igrejas, suas igrejas entram na política – porque o púlpito é o novo palanque – para que seus líderes enriqueçam e se tornem mais poderosos. Só quem não enriquece é o seguidor. O seguidor só vale na hora de votar. Como disse alguém, ele só vale em época de eleição, com o título de eleitor no bolso.


Cristo pregou o amor incondicional, mas vemos seus seguidores clamando por mais armas, licença para matar de policiais e punições mais rigorosas. Eles falam de punição, mas não falam de educação. Aliás, pregam a educação à distância, como se a economia com professores e instalações fosse cabível num país com tamanhos índices de evasão escolar e analfabetismo funcional.


O fato é que tem gente demais olhando só para si, pensando que se estiver bom para si e para os seus, está ótimo. Que se dane o outro; o negro, o gay, a lésbica, a feminista, o pobre, o que não se aposentou, o que não tem nada para herdar. Quando eles reivindicam oportunidades iguais para todos, eles estão de “mimimi”. Azar o seu, se nasceu preto, pobre, mulher, gay... se quis virar feminista, se seus pais não lhe deixaram bens, se você não conseguiu economizar ao longo da vida, se você não se aposentou ainda. Azar o seu se nasceu no Brasil e não tem dinheiro para emigrar, azar o seu se nasceu num país em que a solidariedade é uma abstração, azar o seu se você nasceu num país em que 10 por cento da população tem 55% do PIB, azar o seu se um partido que se diz “novo” vem com o discurso de que “não há problema na desigualdade, temos que combater é a pobreza”... como se fosse possível a equação de diminuir a pobreza sem que os mais ricos abrissem mão de alguma coisa. 


Nosso país é egoísta de dar dó. Tenho certeza que um nórdico olha para a gente e sente pena. Lembro de suecos que eu conheci num treinamento explicando para nós, brasileiros, como se falassem com crianças, que o importante era que todos alcançassem a vitória. Não era o sucesso individual que importava, mas o sucesso de todos. Bem, é por isso que eles estão onde estão e nós estamos aqui. O destino de um povo em que cada um só pensa em si é se ferrar coletivamente. Quem não quer dividir as vitórias, acaba tendo que dividir as derrotas. É simples assim.

Luciana Guerra Malta - 2/11/2018

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