Tive
meu primeiro contato brutal com a morte aos 15 anos, quando perdi um irmão.
Outras perdas vieram, mas todas me remetiam sempre à perda primordial. Parece que
quando morre alguém amado morrem os sonhos e, portanto, o futuro. Aos poucos,
vamos enxergando de novo o presente, vendo a beleza aqui e ali. Então, pronto,
os sonhos voltam. Outros sonhos, porque também não somos mais os mesmos.
E o silêncio. Talvez o pior de tudo seja o silêncio. A morte de um ente querido faz com que se abata sobre nós um silêncio em que só cabem perguntas e nenhuma resposta. Lentamente, a vida vai fazendo outras perguntas. As perguntas não respondidas em relação à morte continuarão, mas como o tempo não para, vamos nos ocupando em achar respostas para as novas questões que o cotidiano suscita.
Recentemente, vi duas atrizes elaborando suas perdas no palco. Uma amiga que perdeu a mãe e dias depois estava no teatro, interpretando um papel diferente de todos que já tinha interpretado, e Nicette Bruno, que está em “Perdas e Ganhos”, dedicada a Paulo Goulart. A impressão que ficou para mim é que atores e atrizes talvez sejam capazes de acelerar o processo de elaboração (que não é o fim da dor, mas a aceitação) pelo fato de viverem-no com toda intensidade no palco. O caso de Nicette é particularmente interessante. Em um determinado momento da peça, que até então eu assistia com algum distanciamento, tive a impressão que minha respiração parou. Durante minutos fez-se um silêncio na plateia daqueles profundos. No fim, aplausos vibrantes. A mensagem estava dada: não pode haver ganho sem que haja perda; não há perda que não venha acompanhada de algum ganho.
Eu tenho uma teoria que, bem, na verdade não sei se é minha. Se não for, lamento, mas como não sei de quem é, apropriei-me dela: acho que a alma é uma só e habita infinitas porções finitas: nós, seres vivos. Tudo é tão perfeito que nossos corpos hão de servir a uma cadeia alimentar que vai chegar de novo à nossa espécie. Como disse Hamlet: “Pode-se pescar com um verme que haja comido de um rei, e comer o peixe que se alimentou desse verme.” É assim, a vida se renova. A matéria que se degrada serve de alimento e gera, inevitavelmente, mais matéria. Parece, afinal, que estar vivo ou morto não passa de um estado. Segundo os budistas, até, não passa de ilusão, pois esse mundo em que vivemos é o mundo da dualidade, do sim e do não, da vida e da morte. O mundo real, para eles, é o mundo do todo, em que não há oposição, ou seja, contrários.
Estejam certos ou não os budistas, no fim, entre perdas e ganhos, creio que todos, em algum momento, concordamos com Gilberto Gil e vemos a vida como uma “estrada que ao findar vai dar em nada, nada do que eu pensava encontrar”. Talvez mesmo por isso, essa estrada seja tão fascinante. Nela, silêncio não é só ausência; é também paz. Quando aprendemos a não ter medo da solidão, entramos em contato com nossa imaginação. E é bom, afinal, cultivá-la, porque só ela pode transformar o silêncio da ausência em sinfonia cheia de significados.
Luciana Guerra Malta - 24/03/2015
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