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Eu, Paris e Danuza Leão

     Outro dia estava arrumando meus livros e achei “Na sala com Danuza”. Lembrei logo da polêmica que ela provocou ao escrever uma crônica lamentando a perda do glamour nas viagens a Paris. Em algum momento, ela perguntava que graça tinha ir a Paris se agora podia dar de cara com seu porteiro por lá. Está certo, a tentativa de piada certamente embute preconceito, mas a verdade é que Danuza pertence a outra era. O mundo do qual ela fala, que criou suas referências e seu modo de ver as coisas, não existe mais. Lembro do Jorginho Guinle depois que ficou velho e foi morar num quarto no Copacabana Palace. Ele tirava foto com turistas. Do antigo Jorginho, o sorriso e a classe, mas seu mundo e sua fortuna já tinham desaparecido há muito tempo. O mundo de Danuza também desapareceu, mas ela persistiu e, para seu azar, vivia de escrever sobre ele. Para mim, tudo que ela escrevia era como um daqueles contos de “Mil e uma noites”, de tão distante da minha realidade. Por isso eu gostava. Ela escrevia bem. E era fascinante ver alguém com ideias tão diferentes de mim sobre tudo. Sempre fui fascinada pela diferença. Mas eis que caíram de pau na Danuza porque ela pichou os pobres que agora viajavam, depois reclamou da PEC das empregadas. Não concordo com ela, mas entendo. Imagino como alguém acostumado a viajar com todo luxo e fausto deve se sentir ao enfrentar as longas filas de embarque e desembarque de hoje. Sem contar que, antes, eles eram acostumados a se reconhecer nos lugares, eram uns poucos que frequentavam lugares seletos. Eles deviam gostar dessa sensação de donos do mundo. Parece que, aliás, é muito comum no ser humano o gosto por se sentir acima dos outros mortais.  Nada mais normal entre as pessoas que ascendem que a ostentação. Vide os jogadores de futebol. Não basta ser rico, tem que mostrar que é rico, senão não tem graça. 

     Mas voltando à Danuza, penso em como devia mesmo ser delicioso, para os poucos que podiam, fazer viagens internacionais há 50, 40 anos. Só que o mundo mudou, cresceu. Se a frequência dos aeroportos se diversificou, a população de Paris também. Todas as grandes cidades são cada vez mais multiculturais. E as velhas regras de comportamento (a antiga “etiqueta”) vai se extinguindo. Porque o mundo anda muito rápido, as pessoas andam, falam e comem rápido. Paris devia ser mesmo uma delícia naquela época. O Rio de Janeiro de 50, 40 anos atrás também era. Adoro o presente, mas sempre sorrio quando lembro da mítica Tijuca da minha infância, que eu singrava com minha bicicleta Caloi. E às vezes acho que, enfim, o que a Danuza lamentou na sua crônica não foi a ascensão social dos pobres, mas a decadência dos ricos. 

     Quando penso nisso, tenho a sensação de que o mundo não apenas vem perdendo a delicadeza (e acho que é disso, também, que a Danuza se ressente), mas também a capacidade de tolerar quem pensa diferente. Bom, na verdade não há oposição aí. Crucificar o diferente é enterrar a delicadeza.

Luciana Guerra Malta – 14/03/2015


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