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Hamlet & Alice


      Revi Hamlet recentemente. É impressionante como cada fala dos personagens, sobretudo do protagonista, pode render um pequeno tratado de filosofia. Mas o que mais me chamou a atenção foi a atualidade da peça. Hamlet, o honesto, luta contra seu tio Cláudio, o corrupto que usurpou o poder depois de matar seu pai e casar com sua mãe. Uma vez que o fantasma do pai lhe pede vingança, Hamlet não tem como fugir, pois não terá paz de espírito enquanto não fizer justiça.

     Na firme determinação de se vingar, Hamlet perde seu amor, mata acidentalmente um amigo, mata e é ferido mortalmente por seu melhor amigo, vê sua mãe morrer, consegue finalmente matar Cláudio e... morre. Seu último pedido é que o amigo Horácio conte sua história. A moral? Os personagens de Shakespeare são sempre complexos e ricos demais para se falar de moral, mas fica claro que, Hamlet, ao optar com firmeza pela vingança, só faz crescer seu ódio. Tomado por tal sentimento, ele fere quem ama e, por fim, morre. Ou seja, não há como perpetrar uma vingança sem sair ferido. Mesmo que a causa seja justa, há que se cuidar para que o desejo de destruir nunca seja mais forte que o de construir. 

     Saindo da Dinamarca para o Brasil, onde não há “algo de podre”, mas uma podridão que parece não ter fim, ouvimos, aqui e ali, um coro que pede a destituição da presidente. Não é de se estranhar, na verdade. Vencer a qualquer custo tem um custo. “A mentira tem perna curta”, como diz o povo. Ora, esse mesmo povo, cansado, se não transformar sua insatisfação justa em desejo de construir, pode acabar como Hamlet.  Sem dúvida, faz parte do desejo de construir ir para as ruas e protestar, mas a oposição, para se qualificar, precisa esboçar um projeto de país. Está na hora de transformar a insatisfação difusa em crítica construtiva. Para que a crítica seja construtiva, no entanto, é preciso encontrar um interlocutor aberto. Quando penso nisso, eu me lembro da Alice, de “Para sempre Alice”, a emérita professora que se vê às voltas com um precoce Alzheimer e vê sua memória se apagar com velocidade assustadora. Vão-se suas lembranças e Alice vai virando uma sombra dela mesma. É estranho pensar que Alice esteja ali, embora nada do que antes a distinguia pareça estar presente. A vida é assim tão imprevisível que não estamos expostos só à circunstância de topar com a morte súbita, mas também com a morte lenta e irreversível de nossa personalidade, nosso eu que tanto prezamos - a morada de nossas lembranças, opiniões e desejos. 

     Sendo a vida em si tão frágil e nosso “eu” também, devíamos cuidar para não perder tempo com empáfia, vinganças, tentativas de mostrar o quanto somos mais inteligentes, capazes e bem informados que os outros. Não devíamos nos preocupar com picuinhas, nem nos gabar de nosso conhecimento superior que, no fim, é sempre apenas um recorte, mas sim, olhar para o outro com respeito e amor. No fim, como diz Alice, parece que a única coisa que resta, depois que tudo se apaga, é o amor. É com essa palavra de quatro letras que o filme termina. Melhor terminar a vida com “amor” servindo de epitáfio do que com o “v” de vingança, que só apequena a existência. Quanto a Hamlet, o perdão de Laerte o redime quando sua vida está quase apagando. E eu creio que ele não teria se tornado o herói que se tornou para a humanidade se sua história não mostrasse que o ser humano, afinal, é sempre capaz de transcender o desejo de vingança.  Infelizmente, na vida como na peça, pode ser tarde demais.
                        
Luciana Guerra Malta - 18/03/2015


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